A versão de 2004 de Meninas Malvadas, dirigida por Mark Waters, foi um marco para uma geração. Com um elenco em ascensão, formado por futuras grandes atrizes à época iniciantes como Lindsay Lohan, Rachel McAdams e Amanda Seyfried, contava uma história que mesclava uma sátira adolescente com um desenvolvimento que remete a várias referências, inclusive em relação a suspenses políticos. Com essa obra ainda muito presente no imaginário popular, vinte anos depois somos surpreendidos com uma nova versão dessa história.

Meninas Malvadas de 2024 não é um remake do de 2004, como se pode achar em uma primeira impressão, mas uma adaptação do musical da Broadway, que reimagina o longa de Waters com a inclusão das características do teatro. Não tive contato com o musical, mas acredito ser uma ideia bastante ousada e inventiva, ainda mais considerando o medo de musicais que a indústria americana impôs recentemente.

No filme, vamos novamente acompanhar Cady Heron (Angourie Rice) em sua jornada em uma nova escola para entrar no grupo das meninas populares liderado por Regina George (Reneé Rapp), enquanto tenta derrubá-la do comando após se apaixonar pelo ex-namorado de Regina, Aaron Samuels (Cristopher Briney). Quem viu Meninas Malvadas de 2004 está muito familiarizado com essa proposta, e a exata identidade de ideia inicial não prejudica a obra por si só. Entretanto, esse novo longa — dessa vez dirigido por Arturo Perez Jr. e Samantha Jayne — vai além, e coloca em tela uma das tendências mais chatas do cinema atual: o ode ao saudosismo.

Já faz alguns anos que a indústria de Hollywood baseia suas obras em uma devoção ao passado. Ainda que haja bons filmes nesse contexto, como é o caso de Top Gun: Maverick e Beetlejuice Beetlejuice, as coisas ficam mais complicadas quando se olha o cenário completo. Afinal, perde-se constantemente a oportunidade de contar novas histórias, ou mesmo de abordar as antigas com uma nova visão. E é nessa devoção quase cega que Meninas Malvadas encontra seu maior defeito.

Não sendo suficiente repetir a proposta, a obra de Perez Jr. e Jayne repete tudo: o desenvolvimento da trama, a ordem dos acontecimentos, o estilo dos cenários e dos figurinos, e até mesmo alguns diálogos bem semelhantes aos de 2004. Todavia, não consegue trazer de volta a mágica daquela sátira impecável com toques de um pseudo épico de tramas de Estado, e a substitui por uma versão bem mais sem graça. Nesse sentido, é um longa que se apoia na nostalgia e na homenagem, mas que não se sustenta na comparação.

E isso ofusca os pontos altos do filme, como as ótimas músicas e o majoritariamente ótimo elenco — apesar de eu ter detestado o Aaron de Cristopher Briney, que não consegue passar nenhum sentimento com sua interpretação. Ofusca até mesmo o grande esforço da excelente Reneé Rapp, que era do elenco do musical da Broadway; e a comédia da personagem de Avantika, a qual apesar de legal, sempre fica na sombra de Amanda Seyfried, em virtude dessa necessidade de utilizar o longa de Waters como base para tudo.

É uma pena, visto que não acho Meninas Malvadas ruim. Em especial, os trechos musicais são bastante divertidos, e a trama em si já é uma qualidade por si só. Contudo, deixa aquele gosto amargo de um filme que poderia ser bem melhor se tivesse coragem de seguir uma direção própria.