ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS LEVES!

Quando lançou em 2014, a franquia John Wick tinha como arma secreta dois diretores estreantes que já eram muito rodados dentro do universo dos dublês: David Leitch e Chad Stahelski. Se o primeiro acabou se afastando para dirigir suas próprias obras, como Atômica (2017) e O Dublê (2024), o segundo foi o responsável por catapultar a franquia protagonizada por Keanu Reeves a outros patamares no segundo capítulo de 2017. Com os filmes seguintes, lançados em 2019 e 2023, Stahelski transformou Wick no protagonista persistente de uma odisseia mitológica, com uma conclusão para lá de satisfatória. E eu estava extremamente ansioso para ver uma jornada semelhante construída para a bailarina Eve Macarro (Ana de Armas).

Eis que vejo o nome do novo diretor que entraria para a franquia, Len Wiseman. Um operário de estúdio que não botava a mão na massa – pelo menos nas telonas – desde 2012 com seu remake fracassado de O Vingador do Futuro e que, antes, só havia conduzido um capítulo esquecível de Duro de Matar e os dois primeiros longas da franquia Anjos da Noite. Por que dar um spin-off de protagonismo feminino para um cineasta tão fraco ao invés de esperar que fosse assumido pelo talentoso criador de seu universo? Vou deixar essa pergunta no ar, porque não é difícil de imaginar a resposta. Mas fato é: eu perdi boa parte do meu ânimo nessa descoberta.

Enfim, Bailarina finalmente chega até mim e o resultado passou longe de ser realmente frustrante, até porque eu já tinha zerado todas as minhas expectativas. Focado na jornada de vingança de Eve contra as normas de sua organização Ruska Roma, o filme acompanha a bailarina mortalmente treinada em uma investigação para descobrir os verdadeiros responsáveis pela morte de seu pai, quando ainda era criança. É uma premissa parecida com a do primeiro longa protagonizado por John e seu desenvolvimento pega até elementos narrativos do segundo ao posicionar Eve em um impasse de lealdade dentro desse submundo do crime.

Porém, há uma informação sobre os bastidores que acho importante destacar aqui: aparentemente, Stahelski foi chamado para refilmar muitas das cenas de ação previamente tratadas por Wiseman. Isso é bem perceptível, a julgar que algumas sequências – especialmente as que populam a segunda metade – apresentam a mesma exploração de ângulos e enquadramentos de câmera que o ex-dublê conferia a sua autoria. Até mesmo alguns recursos usados por Eve nessa dinâmica “gamificada” lembram o que John usava em John Wick 4 (2023). Mas aí pergunto: de que adianta chamar o cineasta original para refilmar a ação se o resto não vai conversar com ela?

E sabe quem mais se prejudica por essa péssima escolha de direção? A própria Ana de Armas. Eu senti o filme inteiro ela sendo sabotada por decisões equivocadas ou até de falta de fé em sua liderança na frente das câmeras. Afinal, é muito difícil acreditar que a mulher que se mostra sagaz na sobrevivência e sedenta por vingança na ação é a mesma que surge tão ingênua, reservada e até adorável nos momentos em que “descansa”. Sim, esse é um tipo de papel recorrente de Ana; basta ver toda a recepção negativa de Blonde (Dominik, 2022) e sua Marilyn Monroe extremamente passiva, quase martirizada. Ou a ingênua empregada doméstica de Entre Facas e Segredos (Johnson, 2019), que nem podia mentir que já vomitava em reflexo. E aqui, eu não quero transferir essa culpa para a atriz. É perfeitamente natural que haja um vício interpretativo adquirido pelo typecasting, mas cabia à direção resolver isso e, melhor, deixar que sua personagem seguisse um rumo minimamente diferente.

Isso ainda é agravado – e eu nunca pensei que diria isso – pela presença do próprio Keanu Reeves. Se o próprio surgia como “o exército de um homem só” na franquia principal, não deixa de ser sintomático que esse filme o use como uma muleta para a personagem de Ana, como um atestado de que ela não consegue lidar com seus próprios conflitos sozinha. Pior: não só dentro, como também fora das telas. Não seria absurdo dizer que Wick está aqui mais como um marketing para essa nova empreitada “feminina” da franquia, talvez pelo medo dos estúdios em repetir o fracasso comercial de Furiosa: Uma Saga Mad Max (Miller, 2024) e de outras tantas produções lideradas por mulheres. Sim, infelizmente ainda vivemos em um mundo misógino que dá poucas chances para reais quebras de paradigma, mas isso afetar tanto a narrativa internamente… Aí sim, me decepciona!

Por mais que, visualmente, os esforços de Bailarina remetam um pouco à inventividade da franquia principal pela presença tímida de Stahelski nas refilmagens, é um filme claramente bem menos coeso e interessante em toda sua unidade. Se a ação empolga aqui e ali, é porque parece mais uma emulação daquilo que funcionava antes. A partir do momento que isso é tirado da equação, todo o longa desmorona por uma narrativa desleixada e anticlimática e por uma protagonista que, por culpa de terceiros, é completamente tolhida de demonstrar seu real potencial para além de fabricar movimentos “wickianos”. Espero que Stahelski ou outro bom diretor de ação volte a assumir a história de Eve Macarro para, daí sim, John Wick ter uma assassina tão interessante quanto ele em seu universo.