Em 2011, a cineasta escocesa Lynne Ramsay lançou nos cinemas o drama Precisamos Falar Sobre o Kevin, cuja narrativa focava em uma mãe que absorvia toda a culpa (autoimposta ou direcionada por terceiros) de um ato brutal que seu filho adolescente cometera. Longe de qualquer sutileza, a diretora escancarava todos os conflitos internos que a personagem ia remoendo ao longo de sua jornada, desde sua depressão pós-parto ao seu relacionamento com o marido, como se buscasse um momento em que sua protagonista tivesse errado o suficiente como mãe para gerar o monstro que Kevin se tornaria. Foi uma obra pesada, que trazia na personagem de Tilda Swinton todo o peso que a misoginia sistemática impõe constantemente sobre inúmeras mulheres, especialmente mães – basta assistir ao pavoroso vídeo do ex-deputado Arthur do Val culpando mães da periferia do Rio de Janeiro por não educarem o suficiente seus filhos para afastá-los do crime organizado.
Até por isso, eu recebi com mais estranhamento a abordagem que a diretora entrega ao seu novo projeto, Morra, Amor. Baseado no livro de mesmo nome da argentina Ariana Harwicz, o longa começa com o casal Grace (Jennifer Lawrence) e Jackson (Robert Pattinson) se mudando para uma casa no campo enquanto esperam a chegada de seu primeiro filho. Com um breve avanço no tempo, o casal começa a ter problemas quando Jackson passa a ser infiel durante seus horários de trabalho e Grace fica constantemente em casa cuidando sozinha do bebê. Entrando em um estado depressivo e de bloqueio criativo em suas empreitadas como escritora, a protagonista vai entrando em surtos cada vez mais extremos.
E o filme meio que para por aí! Ramsay não parecia estar muito interessada em qualquer tipo de complexidade emocional ou psicológica, além de uma ou outra exposição que coloca na boca de seus personagens. Grace é uma personagem caricata do início ao fim e a diretora estranhamente parece satisfeita ao tornar sua obra um grande compilado de humilhações vividas pela personagem. Claro que ela enfeita isso com sua típica linguagem padrão de festivais, com constantes digressões naturalistas e uma montagem que vai e volta no tempo para confundir o espectador ou tentar estabelecer alguma relação entre as situações passadas e presentes.
Nada disso, no entanto, parece salvar sua protagonista da mais completa antipatia. Ramsay chega a um ponto sem volta que, para não dar spoilers, limito-me a dizer que envolve um cachorro. Não me entenda mal, não há nenhuma tentativa de moralizar o filme aqui. Personagens podem fazer coisas terríveis se isso condiz com seus arcos e com a ideia transmitida pela obra a qual pertencem. A questão é que a realizadora extrapolou tanto em sua falta de sutileza – que jamais fora problema em seus longas – a ponto de tornar uma personagem trágica em uma completa lunática que repele qualquer demonstração de empatia do público, algo que lembra um pouco a abordagem de Darren Aronofsky com a jovem revoltada vivida por Sadie Sink em A Baleia (2022). A própria falta de interesse em se aprofundar em algo de Grace para além do seu sofrimento – e aquele que inflige nos outros – não é muito diferente daquilo que eu abordei no meu texto sobre A Cronologia da Água (Stewart, 2025). Parece que ao buscar uma abordagem crua para seus temas relevantes, Ramsay apela para o choque gratuito, insistente e repetitivo, com aquele enfeite “festivalesco” de filme independente conceitual.
Dito isso, ainda é uma cineasta que me desperta interesse, especialmente por seus longas anteriores, e torço para que, em uma futura empreitada, demonstre mais criatividade e responsabilidade ao tratar de um tema tão complexo.