A história de Drácula, inicialmente contada por Bram Stoker em 1897, é uma das mais presentes no cinema. Sob o nome “Drácula”, destacam-se a versão de Tod Browning de 1931 — parte dos famosos monstros da Universal — e Drácula de Bram Stoker, dirigido por Francis Ford Coppola e lançado em 1992. O título “Nosferatu” se originou de F. W. Murnau no filme de mesmo título de 1922, em virtude de não ter direito de utilizar o nome do livro de Stoker, e acabou gerando uma tradição de outros filmes com esse nome, porém com a mesma base de Drácula, dentre os quais estão Nosferatu: O Vampiro da Noite de Werner Herzog, o objeto da crítica de hoje, e a nova versão de Robert Eggers.
Porém, vale notar que há diferenças importantes entre o Drácula e o Nosferatu: o primeiro segue uma linha mais “sedutora” da noção de vampiro, enquanto o segundo destaca o lado monstruoso. Apesar de essas noções se misturarem ao longo dos anos — como ocorre no presente filme, em que a estética do Nosferatu se junta aos nomes dos personagens do livro, como o retorno de “Conde Drácula” no lugar de “Conde Orlok” —, normalmente a escolha do título indica uma certa visão específica sobre o personagem.
Baseando-se mais no filme de Murnau do que no texto de Stoker, o Nosferatu de Herzog conta a história de Jonathan Harker (Bruno Ganz), um corretor de imóveis que é enviado por seu chefe Renfield (Roland Topor) para a Transilvânia, a fim de concretizar um contrato de venda de um imóvel na cidade para o Conde Drácula (Klaus Kinski), e acaba colocando a sua vida, e a de sua esposa, Lucy Harker (Isabelle Adjani), em perigo após descobrir a verdadeira natureza de seu cliente.
Quem assistiu à versão de Murnau — ou a qualquer outra — conhece bem essa sinopse, assim como quase todo o desenvolvimento posterior dela. Herzog claramente tem um carinho imenso à trama, ao ponto de não alterá-la em praticamente nada, característica essa que gera momentos interessantíssimos, e outros nem tanto. Nesse campo, o grande ponto de destaque desta versão é a reinterpretação das cenas marcantes da de 1922 sob a ótica ainda mais soturna de Herzog, que utiliza das luzes e sombras e da arquitetura gótica para misturar o caráter monstruoso do vampiro com um clima deprimente e decadente, tornando o personagem um ser trágico, eternamente condenado à melancolia.
Essa devoção, todavia, encontra uma barreira em trechos que são bem menos interessantes fora do cinema mudo. Em especial, chamou minha atenção a curta cena em que o Conde Drácula chupa o sangue do dedo de Jonathan, ainda no começo; e a sequência de Renfield enlouquecendo sob a influência do vampiro. São ótimas cenas no cinema mudo justamente por este não ter muitos recursos a não ser os exageros interpretativos provenientes do teatro; todavia, quando a tecnologia viabiliza novas formas de expressão, esses trechos quebram a tensão e rasgam o terror, uma vez que chegam perto de remeter ao humor físico das comédias do cinema silencioso.
Por sua vez, as novas ideias da versão de 1979 são um espetáculo à parte, e fazem muito bem principalmente ao trecho final, quando a peste chega à cidade. Acho particularmente inesquecível o momento em que Lucy encontra um banquete de infectados celebrando seus últimos dias de vida enquanto os ratos dominam os arredores; e o final que coroa de maneira extremamente amarga uma narrativa decadente desde o início.
Ademais, é interessante como, apesar desse teor mórbido, Nosferatu não se torna frio. Muito disso se deve às performances intensas de Klaus Kinski e Isabelle Adjani, que interpretam com maestria as facetas de tragédia e de esperança desse conto. Adjani, em especial, guarda em seus olhos expressões únicas, que passam ao espectador uma gama imensa de emoções, e que nos transportam da calmaria ao terror completo constantemente.
Nosferatu: O Vampiro da Noite pode se limitar eventualmente pela falta de identidade em alguns aspectos, mas é a versão máxima da história de Drácula em tantos outros. Depois de ver a obra de Herzog, é difícil imaginar essa narrativa sem os olhares de Adjani, a melancolia de Kinski, a arquitetura do castelo ou as iluminações sombrias aqui presentes. Inesquecível, melancólico e intenso, é uma versão indispensável de Nosferatu.