Quando criança, há imagens que gravam em nossa memória, mesmo nos filmes infantis. A queda de Mufasa em O Rei Leão (Allers; Minkoff, 1994), a morte da mãe de Bambi no filme homônimo (Hand, 1942) e A Fantástica Fábrica de Chocolate de 1971 inteiro são exemplos de como a composição imagética consegue impactar (ou traumatizar) pessoas por toda a vida delas. O poder das imagens de se fazerem memoráveis sequer precisa de uma narrativa triste, uma vez que pode marcar por sua vivacidade e singularidade, como fazem a deliciosa subversão dos contos infantis em Shrek (Adamson; Jenson, 2001), a lúdica revolução de Vida de Inseto (Lasseter, 1998), a mágica tornada viva de Harry Potter e a Pedra Filosofal (Columbus, 2001), dentre tantos outros. Não é porque um filme é destinado ao público infantil que ele precisa ser vazio e esquecível, como se fosse um vídeo curto de redes sociais.

Sonic 3, infelizmente, opta por atender à necessidade imediata de um público hiperestimulado em prejuízo de criar algo realmente memorável. No filme, Sonic (Ben Schwartz), Tails (Colleen O’Shaughnessey) e Knuckles (Idris Elba) precisam se unir a seu antigo rival Ivo Robotnik (Jim Carrey) para combater Shadow (Keanu Reeves), um vilão poderoso e aparentemente imbatível. No caminho, os heróis se deparam com uma variedade de ameaças e de vilões com motivações diferenciadas — de modo curiosamente semelhante a Homem-Aranha 3 de Sam Raimi —, que vão da maldade pura até a tragédia. E é nessa tentativa de ir além do mero maniqueísmo que Sonic 3 encontra seu maior obstáculo, especialmente na figura de Shadow.

Isso porque o desenvolvimento dramático do novo vilão (e de qualquer outro personagem, para ser sincero) é pobre, resumindo-se apenas em uma quantidade reduzida de cenas que são jogadas na nossa cara e desaparecem antes que tenhamos noção do tamanho do acontecido ou de como aquele personagem se inclui na trama. As coisas vêm e vão em uma lógica de vídeos curtos mesmo, que precisam prender a sua atenção em cinco segundos, não podem a manter por mais de um minuto e precisam juntar o maior número de informações possíveis nesse tempo, isso quando não apelam diretamente aos signos próprios das redes sociais, como as dancinhas.

E esse aspecto não seria tão incômodo se o visual de Sonic 3 não fosse tão sem graça. Além das cores chapadas e sem vida, como é próprio de um mau uso da filmagem digital, há uma preguiça imensa na composição das cenas. É um forte sintoma disso o fato de as cenas mais memoráveis do longa serem referências a outras obras, como Akira (Otomo, 1991), Resident Evil: Recomeço (Anderson, 2010) e animes de battle shounen em geral; e todo o resto ser uma tentativa falha de replicar outras obras mais interessantes. Nesse ponto, acho que o clímax ainda se salva um pouco mais, apesar de depender fortemente de fan services para funcionar plenamente.

Se há algo que torna a experiência do longa minimamente aproveitável é a presença de Jim Carrey. Como de costume, o ator dá um show e torna melhores cenas que seriam intragáveis sem ele, além de ofuscar o restante da produção, amenizando a sonolência que a direção desinteressada de Jeff Fowler pode gerar. Nesse sentido, a tática de trazer Carrey para dois papéis simultâneos foi inteligente e salva a obra de ser muito pior, ainda que eventualmente até ele se renda à lógica corporativa tosca de tornar o cinema um TikTok de duas horas.

O cinema é uma arte de imagens e tem essa capacidade de moldar nossa memória através dela, ainda que o público-alvo seja infantojuvenil. Sonic 3, porém, adere à ideia completamente mercadológica e nada artística de que o filme é tão somente parte de um complexo de entretenimento cuja única função é competir com as redes sociais por atenção, e se esquece de desenvolver uma proposta própria, dependendo apenas de Jim Carrey e de um amontoado de referências para se manter relevante.