Em 1964, no clássico do terror brasileiro A Meia-Noite Levarei Sua Alma, o jovem diretor José Mojica Marins concede vida a um personagem que ele nomeou de Zé do Caixão, o dono de uma casa funerária no interior brasileiro que constantemente afronta a ordem social e os princípios moldados pelo conservadorismo do país. Mojica descrevia que a concepção do personagem originou-se de um pesadelo frequente, no qual era puxado para um túmulo por uma entidade obscura, de unhas compridas, trajando preto. Essa imagem onírica se entrelaçou com as vivências pessoais do diretor em relação à morte, aos rituais fúnebres e ao imaginário popular brasileiro, particularmente o temor do além, do castigo de Deus e do sobrenatural cristão.
Mojica já havia trabalhado com o cinema de gênero antes de Zé do Caixão, porém foi com o agente funerário que ele encontrou uma maneira de expressar seu conflito com a moral religiosa. Criado em um contexto fortemente católico, o diretor sempre mostrou um interesse misto de fascínio e aversão pela noção de pecado, inferno e castigo divino. Zé do Caixão surge como a negação radical desse universo: ele despreza Deus, descarta qualquer ideia de vida após a morte e sustenta que o único valor absoluto é a continuidade do sangue, a herança biológica. Para isso, ele julga e elimina aqueles que considera indignos, sobretudo os que se mostram submissos à fé ou à moral tradicional, um horror que não se sustenta em questões sobrenaturais, mas na lógica fria e autoritária.
Essa construção narrativa torna o personagem uma figura moralmente paradoxal. Apesar de ser um vilão cruel, ele também soa como um anti-herói filosófico, que expressa o que a sociedade silencia: o desprezo pela hipocrisia moral, pela fé usada como ferramenta de controle e pelo medo como base da obediência. Mojica não apresenta Zé do Caixão apenas como um monstro, mas como um representante da sociedade, detentor de uma violência intensa, porém sua coerência interna revela a fragilidade dos valores que ele desafia.
Zé nasce do encontro entre sonho e revolta, entre medo e desafio. Ele é a materialização do embate de Mojica contra uma sociedade que se diz moral, mas se sustenta pela repressão, pela culpa e pela violência simbólica. Por isso, mais do que um personagem de horror, Zé do Caixão é um mito brasileiro, criado para confrontar, ofender e revelar aquilo que muitos preferem não ver.
Mojica foi um dos cineastas mais censurados da história do cinema brasileiro. Seus filmes eram constantemente acusados de violar a moral, os bons costumes e a religião, categorias imprecisas que concediam à censura um amplo poder de veto. Cenas de nudez, violência, blasfêmia e sadismo eram suprimidas, filmes completos eram banidos e, em certas situações, só puderam ser exibidos muitos anos depois. Diante disso, Mojica adotou uma postura de enfrentamento simbólico, onde ao invés de suavizar seu cinema, ele passou a incorporar a própria censura ao discurso dos filmes.
O Despertar da Besta é o filme em que José Mojica Marins explora de forma mais profunda a noção de que o seu terror reside não no sobrenatural, mas na própria configuração da sociedade, e na mitificação da figura do Zé do Caixão. Diferentemente de uma narrativa linear ou uma história de terror tradicional, Mojica escolhe um formato quase ensaístico, onde o cinema se transforma em um espaço de confronto direto entre imagens, conceitos e impulsos reprimidos.
Ao contrário dos primeiros filmes do personagem – A Meia-Noite Levarei Sua Alma e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver – nos quais ele é o centro da narrativa e do drama, neste filme Zé do Caixão deixa de ser o protagonista para se transformar em um símbolo, um objeto de acusação e reflexão. Mojica converte sua criatura mais célebre em um conceito, empregando-a como ferramenta de autocrítica e de confronto com seu público.
No longa, um psiquiatra resolve demonstrar que o cinema de terror não é culpado pela violência ou perversão humana. Para isso, ele expõe os pacientes a estímulos intensos durante uma experiência com LSD. Contudo, essa experiência científica logo se mostra uma farsa moral. O médico, visto como símbolo de razão, torna-se um carrasco simbólico ao manipular corpos e mentes em prol de uma verdade supostamente objetiva, desmantelando a noção de ciência como uma entidade pura, expondo-a como um tipo de poder.
Zé do Caixão transforma-se em um pretexto científico, um corpo simbólico disposto na mesa de dissecação da lógica institucional, onde o medo ligado a ele é examinado e convertido em “caso”. A violência de fato surge da frieza do experimento, do prazer sádico do controle e da autoridade científica que se considera superior a qualquer avaliação ética. Mojica sugere que Zé do Caixão não cria o mal, apenas o revela
“Zé do Caixão ficou no cemitério, você está falando com José Mojica Marins”
Como evidenciado pelo próprio diretor, a persona de Zé existe como um alter ego dele mesmo, não apenas como um personagem fictício, mas também como uma figura folclórica escondida dentro de sua mente. Mojica responde às acusações de que Zé do Caixão corrompe o público com suas obras mostrando que o verdadeiro perigo não está na figura do coveiro niilista, mas na repressão, na culpa religiosa e no autoritarismo disfarçado de racionalidade. Ao transformar a figura de Zé do Caixão em objeto de análise, o filme expõe o absurdo de tentar controlar o imaginário por meio da proibição ou da moralização.
A estrutura fílmica é fragmentada, agressiva e, em certos momentos, caótica, rompendo com qualquer conforto narrativo. As performances são quase que teatrais, como se Mojica quisesse romper a ilusão realista e lembrar o público de que está assistindo a uma representação do horror social. A atmosfera opressiva e sufocante é mantida pelo silêncio, como se não houvesse possibilidade de escape daquele mundo, se tornando confuso e claustrofóbico, como se fosse um purgatório psicológico, e Zé do Caixão é o carcereiro desse mundo.
Zé do Caixão preserva seus elementos visuais característicos: capa, cartola, unhas longas, porém perde a atmosfera de centralidade mítica. Ele aparece como um fantasma cultural, mais conceito do que substância. Esse esvaziamento narrativo é intencional: Mojica se recusa a transformar o personagem em um fetiche. Ao contrário, ele o coloca em conflito com discursos que buscam domesticá-lo, interpretá-lo ou torná-lo neutro, resultando em um ode a resistência da censura
No fim, Zé do Caixão não é apenas um personagem, mas um campo de batalha simbólico. Ele é menos um monstro em ação e mais uma representação silenciosa. Mojica parece sugerir que o horror só se torna insuportável quando expõe verdades desconfortáveis. Ao abordar sua criação dessa maneira, o cineasta não só reinventa Zé do Caixão, como também radicaliza sua função: em vez de se assustar pelo excesso, ele opta por perturbar sua cabeça com uma lógica fria, te convencer que o que acreditas nasce da hipocrisia.