ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS!

Desde seu primeiro capítulo, lançado em 1996 e dirigido pelo grande Brian De Palma, a franquia Missão: Impossível cumpriu bem (independente da qualidade de cada filme) aquilo que propôs desde o princípio: transformar a série procedural de espionagem homônima dos anos 1960 em uma cinessérie. Nisso, cada “episódio” focava em uma missão para Ethan Hunt (Tom Cruise) e sua equipe investigar, apreender e/ou deter algo ou alguém. Isso independente das particularidades que diretores como De Palma, John Woo, J.J. Abrams e Brad Bird imprimiram em suas respectivas autorias.

Porém, desde que Christopher McQuarrie assumiu a marca a partir do quinto filme, é perceptível uma ambição maior a cada novo longa. Se a batalha contra o perigoso Sindicato se estendia para o sexto capítulo com a ameaça nuclear dos Apóstolos, personificada no August Walker de Henry Cavill, a longevidade do enfrentamento da ludibriante inteligência artificial conhecida como “A Entidade” e seu assecla Gabriel (Esai Morales) já era anunciada no título do sétimo, Acerto de Contas (2023), que concluía a trama em um gancho para esse oitavo e, possivelmente, derradeiro capítulo.

Junto da escala e da duração, outro elemento foi ascendendo na franquia sob a direção de McQuarrie: a natureza trágica do protagonista. Se Nação Secreta (2015) trabalhava Hunt como um jogador que constantemente apostava contra o próprio destino, correndo riscos com uma sagacidade sobre-humana a ponto de resolver tudo de maneira irreverente e elegante, em Efeito Fallout (2018), tudo começa a mudar de figura, já que o pontapé inicial para aquela missão foi o fato de Hunt ter perdido um artefato nuclear para proteger um amigo. A escolha de uma vida por milhões!

E, com isso, nos encontramos nos dois filmes seguintes, com um McQuarrie constantemente tentando criar novos épicos de ação à la James Cameron. Que Hollywood hoje em dia não cede tanto espaço para obras menos ambiciosas e mais auto-contidas no cenário blockbuster, já é sabido. Porém, parece que toda franquia que inicia com uma proposta um pouco mais humilde e funciona a partir dela está sendo contaminada por essa era de universos compartilhados, superproduções bilionárias, nostalgia incessante e uma sisudez meio enjoada. E é uma pena perceber como Missão: Impossível chegou tão perto de se manter incólume a essas práticas já tão repetitivas da indústria.

Não me entendam mal! Missão Impossível: O Acerto Final não está longe de ser um bom filme. É cheio de qualidades e pede por uma experiência em tela grande, dada a escala de seus grandes setpieces de ação filmados em IMAX. Porém, fato é que, como um grande admirador da franquia, não consegui me empolgar tanto com as últimas jornadas de Ethan Hunt como gostaria. Claro, a sequência do aeroporto no sétimo filme é instigante, a do trem é super-dinâmica e todo o longo mergulho no submarino russo Sevastopol desse aqui é de roer as unhas. Porém, algo se perdeu pelo caminho, algo que sustentava os filmes para além de seus espetáculos de produção prática grandiosa. Algo que muitos definem como carisma, outros como charme, mas nesse contexto específico eu vou chamar de “elegância auto-consciente”.

Em uma franquia de ação com o título Missão: Impossível, cujas principais marcas são objetivos claros, mensagens recrutadoras que se autodestroem em 5 segundos e máscaras de látex hiperrealistas impressas em uma “maleta-impressora 3D”, é nada menos que anticlimático que o tão aguardado “acerto final” de Hunt com seu passado seja populado por inúmeros diálogos longos e expositivos, proferidos por personagens arquetípicos bem descartáveis com uma seriedade acima do aceitável e tão pouca criatividade na construção de seus confrontos. Afinal, o embate entre Ethan e Gabriel é uma versão bem menos instigante daquele contra Walker no sexto capítulo.

Gabriel que, por sinal, foi prometido anteriormente como uma espécie de nêmesis de Hunt e que praticamente entra mudo e sai calado como o vilão menos interessante de toda a série. Não há nem mesmo um conflito mais pessoal entre os dois opostos, jogando totalmente fora a ideia de jornada intimista dos dois capítulos. Ou melhor… Não totalmente! Afinal, o filme insiste na conexão traumática do personagem super coadjuvante de Shea Whigham e seu falecido pai, o vilão encarnado por Jon Voight no primeiro filme. Mas… Isso também não passa de uma pincelada.

E o que dizer da descoberta de que parte essencial da vilanesca inteligência artificial era, na verdade, o infame Pé de Coelho de Missão: Impossível III (Abrams, 2006)? E eu já falei que o inocente analista da CIA Donloe (Rolf Saxon), injustamente enganado pela turma de Hunt na emblemática invasão de Langley no filme de De Palma, retorna aqui para ajudar na última missão? Pois é, daí eu explico porque criei um preâmbulo tão grande ao falar de todo o histórico da franquia. Esse é um filme que constantemente pede por isso, constantemente vive de seu glorioso passado para compensar por um presente que perdeu sua magia, que se tornou repetitivo mesmo longe do banal.

McQuarrie revela, com essa obsessão pela nostalgia, que cansou de comandar Missão: Impossível. Toda a abordagem da ação e dos personagens aqui é uma repetição do que já vimos antes, de forma menos empolgante e mais sisuda, sem o carisma de outrora. As máscaras não aparecem mais aqui, o personagem de Simon Pegg fica de escanteio, a simpática agente de Hayley Atwell se torna coadjuvante de luxo para piadinhas deslocadas; em resumo, tudo fica à mercê da seriedade prepotente e sem graça de um filme que deixa se contaminar pelo cenário atual de Hollywood, mesmo que insista estar nadando contra a maré.

O que temos em Missão Impossível: O Acerto Final, além de uma ótima sequência subaquática e de um carinho pré-estabelecido por alguns personagens que pouco brilham, é uma repetição de fórmula já cansada que não funciona justamente por parecer se render a tudo que um Universo Cinematográfico Marvel tem de pior, com uma proeza tecnicista bem mais esforçada, admito. Nesse ponto, me questiono: por que não continuar em episódios simples, diretos, charmosos e singulares que pertencem ao passado que tanto celebra? Talvez, o fim de Ethan Hunt e sua equipe seja mais sombrio no final das contas; como apenas mais alguns escravos dessa inescrupulosa inteligência artificial que é Hollywood.