A premissa estética e narrativa estabelecida no fim dos anos 40 com o cinema noir — entre elas as histórias sobre crimes dramáticos, os visuais em preto e branco e as moralidades cínicas e seus personagens — emerge dos chamados Hard Boiled, filmes esses de crime protagonizados por detetives e gangsters que eram muito populares nos anos da Grande Depressão. Apesar do Film Noir ter encontrado seu devido fim com o início da ascensão da Nova Hollywood e a chegada dos jovens diretores que se expressavam de forma um pouco mais visceral, o estilo popularizado na era clássica de Hollywood foi abordado de uma forma diferente nos anos seguintes, com os novos diretores se utilizando dos tópicos narrativos e estilísticos para buscar uma abordagem mais caótica, suja e existencialista.

Nesse aspecto, filmes como Taxi Driver, de Martin Scorsese e Operação França, de William Friedkin desenharam essa nova ideia do chamado Neo Noir, as clássicas narrativas acerca de moralidade, crime e perigo em um cenário urbano decadente da década de 70, personagens de moralidade pífia e atormentados pelo tempo em que vivem. Ridley Scott é um desses diretores que buscou replicar as características do Film Noir, construindo um mundo retro futurista no qual sua estética Neo Noir adere ao cenário caótico cyberpunk de Blade Runner.

Deixando claro que estou me referindo à versão do corte do diretor lançada em 1992.

A concepção do mundo de Blade Runner é construída na imagem arruinada do capitalismo tardio, sendo a cidade de Los Angeles coberta por gigantescos prédios, tão densos que cobrem toda a superfície. Essa que quando é retratada, se mostra sendo suja e decadente, pilhas de lixo espalhadas, a fumaça dos bueiros se alastrando por todos os lados e a imparável chuva que assola o contraste entre o tom sombrio da fotografia e as milhares de luzes de néon que se espalham por toda a cidade,  uma imagem extremamente recorrente na estética Neo Noir.

A decadência do capital não é refletida apenas em sua cinematografia, mas também em sua narrativa. Os replicantes foram criados à semelhança de seus criadores, dessa forma, a raça humana se concedeu o papel de Deus nesse processo de realização da demanda capitalista. A rebelião que deu origem aos Blade Runners representou um desequilíbrio quase divino nessa escala de poder, onde o criador passa a ser ameaçado diretamente por sua criação que, apesar de ter sido criado à sua semelhança, não se assemelha a ele em sua própria existência.

Os replicantes são, como muitos se referem a eles, “latas com pele”, seres criados como humanos que são privados de sua humanidade, figuras que se assemelham a Deus submetidas a servidão, muito disso para a humanidade se ausentar de uma certa culpa moral em colocar o avanço acima de quesitos morais que, segundo essa lógica, não se aplicam a seres não humanos. A humanidade daqueles que não são humanos é representada quando Rachel (Mary Sean Young), uma replicante que não tem consciência de sua natureza, chora ao se realizar que sua vida foi criada por terceiros em sua cabeça, um detalhe que intensifica os conflitos morais de Deckard.

Rick Deckard (Harrison Ford), é um homem alcoólatra e atormentado, afundado em seus traumas de trabalho, um policial com o único objetivo de executar os replicantes rebeldes, ou como todo o grupo policial desse mundo se refere, retirá-los. Mesmo quando se referem ao ato de matar, o ser humano evita colocar o replicante em seu nível de existência, a morte de um replicante pelas mão do agente da lei não configura como assassinato, execução, homicídio ou qualquer outro termo jurídico que se refira a tirar a vida de um ser humano, pois uma máquina não deve possuir direitos, um ser que difere em sua existência não merece ser igualado ao Deus que o criou. Deckard é infundido em sua depressão pois não suporta assassinar seus iguais, algo que o próprio personagem se questiona durante todo o seu afastamento do serviço, algo que se intensifica quando conhece Rachel, um ser artificial que esbanja humanidade.

Roy Batty (Rutger Hauer) e seu grupo de replicantes apenas buscam seu criador para aumentar seus curtos períodos de vida, um ato de rebeldia que desafia a vontade de seu Deus, e a vida determinada por Eldon Tyrell (Joe Turkel), o principal criador dos seres replicantes, serve como um plano de contenção para os atos contrários ao seus propósitos para a escravidão. Quando Roy descobre que não existem meios de aumentar sua vida, ele assassina Tyrell, como a imagem de Deus sendo morto pela humanidade, em meio ao avanço desenfreado do capitalismo, onde apenas o progresso, o poder e a riqueza domina a crença das pessoas, o poder de criar vida agora não pertence a Deus, mas sim ao homem.

“Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer.”

No momento da morte de Roy, ele revela para Deckard sua humanidade, seu lamento em seus últimos segundos sobre os acontecimentos grandiosos de sua vida, em que todos aqueles cenários raros e acontecimentos rápidos irão apenas sumir, como nós, humanos, também nos perdemos como lágrimas na chuva.