A obra de Jane Austen é uma das queridinhas da indústria cinematográfica. De tempos em tempos aparece uma nova adaptação de algum dos romances da autora inglesa. Assim, Razão e Sensibilidade é o escolhido novamente, após outras nove versões, sendo as duas mais conhecidas o filme de Ang Lee, de 1995, e a minissérie da BBC, de 2008. No entanto, é a primeira vez que uma mulher, Georgia Oakley, assume a direção.

O destaque dessa nova adaptação é o desenvolvimento das relações entre as personagens. O vínculo entre as irmãs Marianne (Esmé Creed-Miles) e Elinor (Daisy Edgar-Jones) é melhor estabelecido desde o início, quando as duas dividem suas angústias sobre o que fazer agora que perderam o pai e precisam se mudar da casa em que cresceram. Ao mesmo tempo em que o filme segue bem próximo ao texto de Austen, a narrativa ressalta ainda mais a tensão entre a razão de Elinor e a sensibilidade de Marianne, talvez até como uma maneira de modernizar e aprofundar a amizade entre as duas. 

Os interesses amorosos também têm um pouco mais de complexidade, com momentos quietos, mas especiais, onde o sentimento entre os casais fica perceptível tanto em pequenos gestos e olhares, quanto em diálogos pontuais sobre interesses em comum, como quando Elinor observa e desenha Edward (George MacKay). O coronel Brandon (Herbert Nordrum), em especial, tem a sua presença marcada em momentos cruciais com expressões e comentários que vão além da costumeira representação estóica do personagem. Assim, o desenrolar de seu envolvimento com Marianne aqui parece mais natural.

Outro aspecto que distingue o longa de seus predecessores é uma predominância dos ambientes abertos. A conexão das irmãs, especialmente Marianne, com a natureza é evidenciada pela fotografia que abusa de belas paisagens bucólicas filmadas na “hora dourada”. Por outro lado, nos ambientes fechados, inclusive no baile, a “luz natural” de poucas velas deixa tudo acinzentado e muito escuro, remetendo não ao período da regência na Inglaterra, mas a uma estética medieval ou do fim do século XIX, antes do advento da eletricidade. 

Essa escolha estética mais sóbria também é refletida nos figurinos, predominantemente de cores neutras escuras, como o preto (o que é justificado pelo luto), cinza, azul marinho e marrom – uma espécie de anti-Bridgerton. Entretanto, os cabelos estão sempre soltos e despenteados, às vezes com gorros brancos que parecem amish ou chapéus super elaborados em cima dos tais cabelos desgrenhados. É uma escolha curiosa, visto que há uma intenção clara em outros aspectos do design de produção de caracterizar de maneira fidedigna o período retratado. 

Embora não acredite que esta adaptação será tão marcante culturalmente quanto a de Orgulho e Preconceito de Joe Wright, as duas têm características semelhantes na medida em que ambas prezam por aprofundar a relação entre os personagens e por criar momentos especiais de conexão entre eles. Razão e Sensibilidade também consegue modernizar o texto de Austen sem perder a essência que faz desse clássico tão querido até hoje.