O chamado Cinema de Guerrilha ganhou bastante força durante os anos 50 e 60,  não sendo apenas uma maneira de fazer filmes, mas uma postura política diante do ato de filmar; uma forma de produção cinematográfica independente, artesanal e politicamente engajada, que surgiu como resposta às limitações impostas pela indústria e aos contextos de opressão política e econômica. Nascendo da necessidade de produzir fora dos sistemas de poder e se utilizando de poucos recursos, o Cinema de Guerrilha, inspirado em movimentos revolucionários e nas táticas de guerrilha armada, se destacou no cenário da sétima arte durante década de 60, especialmente na América Latina, nos países marcados historicamente pelos longos processos de descolonização e pela firme resistência às ditaduras totalitárias que assolavam suas sociedades.

Dentro desses contextos, certos movimentos do cinema, como por exemplo o Cinema Novo, o Cinema Marginal e o Terceiro Cinema latino-americano,  juntamente de cineastas como José Sanjinés e Tomás Gutiérrez Alea, se tornaram grandes pilares desse estilo do fazer cinematográfico, caracterizado por narrativas com forte teor social e político. Por outro lado, fora dos países de terceiro mundo, George A. Romero buscou replicar essas técnicas em um gênero que era constantemente rejeitado pelo cinema militante e político (que prezava por narrativas mais pé no chão e realistas): o cinema de terror. Tratando-se de uma manifestação política com base em uma narrativa assombrosa e claustrofóbica, Romero deu origem a um dos filmes que mais influenciou o seu subgênero nos anos subsequentes, a grande obra-prima A Noite dos Mortos-Vivos.

Mesmo que Romero nunca tenha se declarado um cineasta militante nos moldes do Terceiro Cinema latino-americano ou do Cinema Novo, seu longa compartilha vários princípios centrais do cinema de guerrilha, como a independência criativa, um subtexto social e político forte, a improvisação e ruptura com os modelos dominantes dos grandes estúdios. Gravado fora dos grandes estúdios hollywoodianos e com baixíssimo orçamento, seu longa de estreia se tornou um marco de virada no horror e moldou todas as narrativas modernas que envolvem zumbis e criaturas semelhantes, a partir de uma autoria independente que potencializa todos os seus elementos de terror.

A fotografia em preto e branco granulada, a câmera trêmula e claustrofóbica, o som estonteante e a montagem nervosa de A Noite dos Mortos-Vivos criam um realismo quase documental, que faz o espectador se sentir dentro do caos. Essa estética suja, crua e espontânea lembra o modo como o cinema de guerrilha filmava revoluções, protestos e realidades sociais sem retoques. Romero transforma o horror de sua obra em uma denúncia da sociedade americana, usando o gênero popular para atacar a alienação, o racismo e a violência estrutural.

Romero se utilizou do gênero como ferramenta para sua visão crítica de seu próprio país — detalhe esse que não era muito popular em Hollywood. O protagonista Ben (Duane Jones), é um homem negro colocado em posição de liderança de um grupo de sobreviventes que é incapaz de cooperar diante da crise, sendo uma clara alusão à hipocrisia da socieade americana. Dentre as pessoas desse grupo está Harry (Karl Hardman), o pai abusivo e controlador de uma família branca, que normalmente seria um estereótipo de líder, mas aqui é mostrado como alguém menos capaz de tomar a frente que Ben — o que é, no mínimo, uma representação ousada para os anos 60 nos EUA. A liderança e a morte brutal de Ben ao final, sendo ele alvejado por atiradores que o confundem com um dos zumbis, ecoam as tensões raciais dos Estados Unidos durante o período de luta por direitos civis.

A Noite dos Mortos-Vivos é uma narrativa de terror clássica, que detém um forte subtexto político, refletindo o desencanto dos estadunidenses com sua própria nação durante os anos 60. Por se tratar de uma obra com tantas camadas, acabou dando origem às mitologias de zumbis de quase todas as narrativas do subgênero que viriam a ser realizadas posteriormente.