Logo nos primeiros momentos do longa de estreia do já falecido John Singleton, um grupo de crianças negras faz uma pequena parada no caminho até a escola para observar a cena de um brutal tiroteio, no ano de 1984. No caminho, nos deparamos com placas de trânsito que indicam “caminho único” e “caminho errado” e, com cortes secos, somos surpreendidos por pôsteres da campanha de reeleição do presidente Ronald Reagan cravados de bala antes de termos um vislumbre brutal do que aquelas crianças encaram como “banal”.

Esses primeiros minutos já escracham muito da lógica cinematográfica de Singleton com Os Donos da Rua, lançado dois anos depois de Faça a Coisa Certa (Lee, 1989) e em plena ascensão do hip hop e do gangsta rap. O diretor não tem interesse nenhum na fala mansa e na poesia audiovisual para retratar suas ideias e protestos. Tudo aqui é muito direto, sem rodeios e, por vezes, apela até ao monólogo discursivo. O que poderia soar como panfletagem, quando posto em seu devido contexto, se aproxima mais de uma espécie de rap em forma de cinema, simples, objetivo, mas extremamente eficiente na retratação de uma realidade que era poucas vezes enxergada até mesmo dentro do cinema independente.

Os Donos da Rua chegou aos cinemas em 1991 justamente para questionar a ascensão da criminalidade urbana na década anterior e apontar como o tráfico de drogas e a grande presença de armas nos guetos majoritariamente negros parecem ter sido pensados como um novo passo da segregação racial nas grandes metrópoles estadunidenses. É uma tragédia social que explora a raiz das problemáticas e foge a todo momento de uma retratação sensacionalista barata que explora a miséria daquela parcela da sociedade. Na verdade, muito pelo contrário! A condução de Singleton aqui jamais toma o lugar de juiz, júri ou executor. É uma direção humanista e quase sociológica, bem próxima ao que Spike Lee havia feito na Costa Leste em seu já citado clássico.

Reservando seus primeiros 30 minutos para a infância do trio principal (formado por Tre, Ricky e Doughboy), a narrativa reconhece como a construção daqueles personagens não se baseia em uma única atitude equivocada do presente, mas sim em toda uma vivência sob determinado contexto sociopolítico e econômico. Cada personagem desse mosaico do bairro de Crenshaw parece representar uma faceta daquele microcosmos, do jovem educado pelo pai que busca uma bolsa universitária até o marginal renegado sem muita perspectiva de vida, passando pelo jovem pai de família que busca carreira como atleta. Tudo em um mesmo núcleo, cada perfil formado por pequenos desvios de vivência dentro daquele mundo.

Não há uma história com início, meio e fim aqui, mas sim um recorte amostral. A violência não se faz onipresente, mas sempre parece estar próxima, de forma imprevisível. Um momento de curtição entre amigos e namoradas pode terminar em balas disparadas para o céu, disparos esses que vão atrapalhar uma jovem que está estudando para o vestibular em outro canto da vizinhança. Ao mesmo tempo que é direta e objetiva, a estruturação da narrativa consegue alcançar uma beleza muito significativa mesmo a partir do trágico, como a métrica dos versos e as rimas entre eles em uma letra de rap. É evidente a formação de um efeito dominó, em que evento X cria uma cadeia reativa que culmina em Y e leva até Z. E, dentro disso, conflitos melodramáticos posicionados de maneira sagaz – o maior exemplo, talvez, sendo aquele vivido pelo personagem de Cuba Gooding Jr. na reta final da obra.

Poucos desfechos são mais destruidores do que o singelo final de Os Donos da Rua, em um diálogo compreensivo e afetuoso entre o consciente Tre (Gooding Jr.) e o revoltado Doughboy (Ice Cube). Pode soar um tanto maniqueísta o que Singleton transmite com suas notas finais, sobre o destino dos dois jovens, mas como já disse aqui, é um recorte amostral que se assemelha à construção narrativa de um rap. E não dá para dizer que o abismo entre o fim desses dois amigos de infância não tenha respaldo na nossa realidade material. Talvez esse seja o lado mais cruel da criminalidade planejada como esse novo passo da segregação racial no ocidente: a bola de neve só vai aumentando e os dominós vão caindo um por um.