A maior parte das obras cinematográficas que buscam retratar a árdua realidade do trabalho, são normalmente tratadas majoritariamente a partir de narrativas dramáticas, cômicas ou históricas, como exemplificado em filmes como a obra-prima Ladrões de Bicicleta (De Sica, 1948), o clássico Tempos Modernos (Chaplin, 1936) ou O Sal da Terra (Biberman, 1956). A abordagem do terror é relativamente rara nos filmes que tratam desse tipo de temática, é esse detalhe que torna Trabalhar Cansa, de Juliana Rojas e Marco Dutra, particularmente interessante, pois ele utiliza justamente o gênero de horror para representar problemas que normalmente seriam tratados de maneira realista. Dentro dessa ideia, o terror trabalha de maneira diferente, permitindo transformar uma angústia social abstrata em uma ameaça física ou sobrenatural.
Em um drama social, o trabalhador se torna o epicentro dos acontecimentos, sendo explorado e compreendendo (ou não) racionalmente as causas de sua situação. No horror, entretanto, a própria realidade cotidiana se torna a dimensão estranha, ameaçadora e até mesmo monstruosa, e é daí onde Rojas e Dutra constroem sua proposta, onde o mal está empregado na existência do trabalhador e nas relações de poder que esse sistema indiretamente impõe. O título já serve como uma síntese do filme: trabalhar cansa, mas o cansaço não é só físico, é, além disso, psicológico, financeiro e social.
Helena vê o supermercado como uma oportunidade de ascensão e estabilidade para sua família, mas à medida que ela investe mais no negócio, percebe que o trabalho não garante necessariamente estabilidade. Ao invés disso, o negócio começa a consumir seu tempo, sua energia e sua própria identidade, e a partir disso, Helena ocupa simultaneamente posições diferentes: é proprietária e empregadora, mas também está submetida às exigências do mercado e às expectativas econômicas da família.
Paulo, por outro lado, ocupa a posição de trabalhador precarizado, dependente daquele emprego e facilmente substituível, que se ausenta da posição de principal fornecedor de sua casa, desenhando uma dinâmica de dupla condição de classe. Isso torna suas posições diferentes daquela do grande capitalista tradicional, onde ela é proprietária, mas também precisa trabalhar para preservar sua posição social, e ele se encontra em uma crise interna enquanto está sem um emprego. Essa relação gera momentos de conflitos que se tornam tão angustiantes quanto violência explícita, pois mesmo que não haja conflitos físicos, esse tom hostil de sua narrativa se desenvolve completamente nos vínculos de poder entre seus personagens. A capacidade de prover economicamente está ligada à maneira como os personagens percebem a si próprios e uns aos outros.
Conforme esses embates indiretos acontecem, o longa parece aos poucos revelar sua natureza sobrenatural, adotando elementos folclóricos de maneira muito sutil, até a revelação da força maligna que assola o supermercado. Esse mal se manifesta na presença de um suposto cadáver de um lobisomem escondido nas paredes do mercado, uma figura morta que se torna um símbolo da animosidade do mercado de trabalho. Essa ambiguidade é especialmente significativa em Trabalhar Cansa, pois o filme retrata personagens submetidos a condições que limitam a vida à produtividade e à consequente tentativa de sobrevivência.
A figura do lobisomem pode ser vista como uma representação do que foge à rigidez do trabalho: a animalidade, o instinto e uma energia corporal que não se conforma com as demandas de eficiência e controle. Mesmo assim, o filme não converte o monstro em um símbolo político de significado exclusivo, mas sim emprega sua presença para criar uma sensação de caos, insinuando que a realidade social tem aspectos que fogem à compreensão lógica dos personagens. Ele funciona como um antagonista silencioso, não agindo de maneira direta, mas sendo a representatividade física de todos os conflitos da narrativa, e da existência precária do trabalhador.
É um longa que trata da desumanidade do capitalismo, e como ele transforma a experiência do trabalho em uma espécie de selva animalesca, fazendo isso de uma maneira nem um pouco convencional, que vai de encontro com a lógica realista do cinema brasileiro contemporâneo.
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