Bom Garoto (2025) conta a história de Tommy (Anson Boon), um jovem adolescente-virando-adulto que leva uma vida de drogas, sexo e crimes. Certa noite, voltando para casa após uma festa, é dopado e sequestrado. Tommy acorda acorrentado, no porão de Chris (Stephen Graham) e Kathryn (Andrea Riseborough), um casal que admite ter capturado-o para lhe ajudar a se livrar de seus vícios e se converter em um bom garoto.

Até o momento no qual fui convidado para esta cabine, eu nunca havia visto um filme do polonês Jan Komasa. Quando recebi o convite, assisti Corpus Christi (2019) para conhecer um pouco mais do diretor. Engraçado que, por algum motivo, eu possuía a impressão de que seria um longa de terror. Impressão completamente infundada, nem eu sei por quê, mas na minha cabeça eu tinha certeza — usando a vulgar e popular expressão (desculpa): tirei do cu. Quando finalmente assisti descobri que não pertencia ao gênero — independente disso, um ótimo filme. 

Ok, assisti Corpus Christi e quebrei minha expectativa. Mesmo assim, por razões alheias à minha racionalidade, eu também tinha a impressão que Bom Garoto seria de terror. Em minha defesa: a sinopse deste tem um pézinho no gênero, vai!? Uma pessoa sequestrada por dois malucos e que precisa dar um jeito de fugir. Não é exatamente uma sinopse inovadora — tem coisas muito parecidas por aí. Além disso, ainda fazendo o advogado do diabo (onde o diabo sou eu mesmo e minha própria concepção errônea), o pôster também passa uma vibe nessa pegada: uma família em uma sala escura, todos com cara apática, um deles sendo um garoto com uma corrente enrolada no pescoço e vários hematomas no corpo. Uma imagem, no mínimo, bizarra. Então imagine minha surpresa quando, novamente, minha expectativa infundada (desta vez um pouco mais fundada, ok?) foi quebrada. Não, meu caro leitor, Bom Garoto também não é um terror. Admito, falha minha, eu devia ter aprendido na primeira vez. Errar uma vez é humano, persistir no erro também — achou que eu iria falar “burrice”? Achou errado, otário! 

É curioso que Bom Garoto poderia, perfeitamente, ter uma pegada dentro do horror. Não apenas pelas óbvias aproximações na história, mas Komasa constantemente transita entre gêneros ao decorrer do longa. Assim, havia um alinhamento perfeito para que isso fosse feito; mas não foi. E, portanto, seria a falta de terror um problema? Será que eu não estou julgando o filme mais pela minha expectativa do que pelo que ele, de fato, é? Não. Pelo contrário, o afastamento que a obra faz desse gênero é, provavelmente, o que torna ela tão interessante. Aperte os cintos e senta no banco do passageiro que vou te explicar.

Como dito, sendo um filme que reside em uma intersecção enorme com as possibilidades do terror, mergulhar nisso seria o caminho “certeiro”. Não que optar por tal estrada fosse, obrigatoriamente, ruim — sendo bem feito, qualquer caminho ficaria bom. Entretanto, além da minha maluca pré-concepção, o início do filme (e todos os pontos já citados) sugerem ao espectador a possibilidade do longa mergulhar nessa direção. O começo é turbulento e caótico: coisas ruins acontecem, gravadas com uma câmera tremida, uma montagem picotada que desorienta e luzes piscantes que corrompem a imagem. Quando o longa acalma um pouco, somos apresentados a novos personagens em um novo contexto, uma conversa misteriosa com um papo estranho que deixaria qualquer envolvido com o pé atrás — filmados no canto de um restaurante, com a câmera sempre enquadrando-os contra a parede (nunca mostrando o resto do local) e, quando o plano muda, está próximo de seus rostos; uma pegada que busca instaurar tensão com escolhas que insinuariam uma espécie de suspense.

Assim, quando Komasa leva as coisas para outro caminho, pouco tempo após os minutos iniciais, surge uma quebra de expectativa — e desta vez uma expectativa real e construída pela obra, e não algo que, novamente, tirei do cu — bem interessante. Interessante, principalmente, pois o filme transita entre espectros quase que opostos ao terror.

Ora o filme tem momentos melodramáticos, que soam como um dramalhão familiar — sugerindo o protagonista Tommy mais como um simples membro daquele núcleo do que como uma vítima de sequestro. Ora molha os dedos na comédia, trazendo cenas genuinamente engraçadas que filmam os personagens e os ambientes com leveza (planos abertos, bem iluminados, cores vibrantes, etc.) — até parece sugerir uma espécie de coming-of-age doentio com isto. Ocasionalmente faz uma parada romântica, quase erótica, enquadrando alguns instantes de flertes com imagens paralelamente engraçadas e sedutoras, em um estilo meio canastrão que combina com o protagonista.

Essa volatilidade, inclusive, desperta um estranhamento no espectador que Komasa consegue aproveitar muito bem. Não apenas pelas rápidas transições de atmosfera, mas pela dissonância entre a história que está sendo contada e como ela está sendo contada. Afinal, a trama é, novamente, sobre um jovem que é sequestrado, abusado, violentado, e mantido em cativeiro. Não por pouco tempo, aliás; a situação perdura por meses. É um tema pesado, denso, totalmente contrastante com a forma que o diretor emprega em vários momentos conforme vaga pelas diferentes abordagens. De certo modo, essa “leveza” ao filmar diversos desses instantes conversam diretamente com a jornada do protagonista, que aos poucos desenvolve uma espécie de Síndrome de Estocolmo — condição psicológica na qual uma vítima de sequestro desenvolve simpatia pelo seu agressor —, passando a se afeiçoar pela sua vida atual.

Mas, lembremos, que quem perpassa por essa condição é o personagem e não o espectador. Nós não temos Síndrome de Estocolmo (bom, pelo menos espero que não seja seu caso); e, portanto, conseguimos reconhecer com clareza maior os absurdos, abusos e agressões da situação. Reconhecer isso, contudo, nos deriva para um sentimento bizarro, meio fora de lugar, criado através da percepção da discrepância: entender aquela história como um acontecimento horrível e desumano, mas experienciar ela através da lente de uma câmera que a transforma, até mesmo, em algo meio confortável. Quanto mais cotidiana, afetuosa e até divertida aquela convivência parece, mais perturbador se torna perceber que sua fundação permanece sendo um sequestro.

Poderia facilmente Bom Garoto, então, cair em uma armadilha auto-infligida. Sabe aquela seara de filmes de terror, sobretudo da década de 2020, que soam como se tivessem vergonha de ser terror? Aqueles longas que se apresentam assim, e usam e abusam dos tropos e características do gênero mas só como uma cortina para camuflar uma metáfora ou mensagem mais dramática e pé no chão — algo que até funciona em alguns casos, mas já está meio batido e é, honestamente, um pouco covarde. Não seria impossível imaginar Komasa descarrilhando para um local assim. 

Entretanto, com exceção dos minutos iniciais — os quais sugerem isso justamente para fomentar uma expectativa errada —, o longa nunca se utiliza do terror/suspense para fingir ser algo que não é (nem para nenhum outro objetivo). A sugestão desse caminho é abandonada logo no primeiro ato e, dalí para frente, é um filme muito honesto. Sempre flutuando entre identidades diferentes mas que, quando está habitando-as, abraça-as com sinceridade. Não soa como comédia e tenta ser outra coisa; não aparenta ser um melodrama mas mantém outra faceta por baixo da máscara. Quando se propõe a ser algo, ele é exatamente aquilo.

Dentre a miríade de artifícios que fazem Komasa se afastar desse destino podemos perceber, talvez com mais intensidade que os outros, uma recusa em aprofundar as histórias daquelas pessoas para além do que está posto diante da câmera. Sabemos que, antes do filme começar, uma tragédia aconteceu naquela família — e dá para imaginar muito bem o que rolou — mas além de leves e rápidas sugestões, isso nunca é aprofundado e esclarecido.

Tommy já tinha uma vida horrível antes do sequestro, mas o que o levou até aquele caminho? Será que ele tem família? Quem são aqueles sequestradores fora do cativeiro? O que fazem quando não estão torturando vítimas? Essas, e outras, perguntas sobre aquele mundo nunca são respondidas. Ocasionalmente algumas coisas são sugeridas sobre esses aspectos, mas nunca de um modo nem muito direto nem que tome para si muita importância — apenas rápidos comentários feitos, na maioria, em conversas casuais. A única exceção é a personagem Rina (Monika Frajczyk), que é um pouco mais desenvolvida nesse sentido — e que, inclusive, é uma das partes menos interessantes do longa —, mas com um propósito muito específico dentro da estrutura narrativa.

Em suma, se tais questões fossem respondidas, especialmente em detalhes, o resultado que Komasa parece desejar atingir seria comprometido. Primeiramente, as respostas aprofundariam a dramatização da trama, o que, por sua vez, dificultaria a transição fluída por diferentes atmosferas. Ainda, as diferentes facetas do longa dependem de abstrairmos os personagens menos como pessoas e mais como personas; às vezes precisamos enxergá-los como “os sequestradores” e “as vítimas”; às vezes é necessário vê-los como “os pais” e “os filhos” de uma família feliz; ora percebemo-los como dois casais em uma jornada romântica; ocasionalmente todos são amigos com interesses em comum. Histórias e passados mais profundos tornariam essa conceptualização deles mais complicada; afinal, daria-se uma forma mais concreta para àquelas pessoas, e quanto mais a pessoa existe mais ela se sobrepõe à persona.

Essa recusa em dar uma profundidade mais definida aos personagens não representa, portanto, uma ausência de interesse por eles (o que nem seria um problema exatamente), mas aquilo que permite ao filme reorganizá-los; abdicando de uma psicologia estabelecida que os aprisione em identidades fixas mas também rejeitando anular as facetas anteriores. Tommy não deixa de ser uma vítima quando passa a ocupar o lugar de filho; os sequestradores não deixam de ser seus algozes quando assumem a aparência de pais amorosos. As personas se acumulam, contradizem-se e convivem no mesmo espaço.

Assim, também impede-se que a passagem entre gêneros soe como um amontoado de ideias desconexas. Cada nova atmosfera corresponde a uma nova organização daquela família improvisada. O longa de Komasa pode ser todas essas coisas porque seus personagens também podem ocupar todos esses papéis sem que nenhum deles seja inteiramente verdadeiro ou completamente falso.

No fim, eu realmente tinha tirado do cu: Bom Garoto não é um filme de terror. Mas — e eu juro que não estou querendo só me defender! — talvez minha expectativa não estivesse tão distante da realidade. Komasa faz um filme tão, ou talvez até mais, inquietante quanto seria caso fosse um longa de terror. Não é uma obra que te despertará medo, no sentido mais clássico da palavra, mas que te incomodará ao perceber que, em alguns instantes, aquela relação monstruosa pode soar genuinamente acolhedora e aquele cativeiro pode adquirir a aparência de lar. Talvez — e agora assumindo o afastamento do medo clássico — você ainda possa sentir medo. Talvez você possa temer, não pela vida de Tommy, pelo que os sequestradores podem fazer, ou por se assustar com o filme, mas por perceber que o garoto pode aprender a amar aquilo e que você pode compreender por quê.