O cinema de Sam Peckinpah é, mais do que de qualquer outro diretor estadunidense, uma reflexão constante sobre o fim do mito do faroeste, caracterizando o oeste selvagem dos filmes clássicos como um pequeno mundo que já não pertence mais ao tempo em que se encontra. Ele não apenas revisita o gênero, ele o desmantela por dentro, mostrando que seus pilares estéticos – o heroísmo idealizado, a honra do pistoleiro e a liberdade individual – não resistem ao confronto com a modernidade, com a burocracia ou com a própria condição humana. Para Peckinpah, o faroeste clássico já estava morto quando ele começou a produzir seus longas; sua obra é o velório, o ritual de passagem e, ao mesmo tempo, a última tentativa desesperada de manter vivo um espírito condenado.

Pat Garrett & Billy The Kid é um longa que segue a mesma ideia de desmistificar o faroeste a partir da passagem do tempo, um tópico narrativo recorrente na filmografia do diretor, trabalhada sempre ao lado de uma violência gráfica que escancara esse lado infesto do velho oeste idealizado. Peckinpah concede à história um tom melancólico e crepuscular, acompanhando a perseguição de Pat Garrett, um ex-criminoso que agora é um agente do governo, a seu antigo amigo Billy The Kid, um famoso pistoleiro fora da lei que ainda vive sua vida nas antigas tradições do oeste selvagem. Todo esse conflito não é apresentado como uma luta entre bem e mal, mas como uma tragédia inevitável, onde fica claro que o problema não é moral, mas sim histórico e temporal. Garrett se adapta ao novo ordenamento social para sobreviver; Billy resiste e, por isso, deve desaparecer.

Pat e Billy são homens divergentes em relação a isso. Patt é o fora da lei que aderiu à justiça, mas não de uma maneira moral e redentora, vendo sua posição mais como um emprego que lhe paga bem. Já Billy, por outro lado, rejeita a modernidade para viver nos típicos meios que violam a ordem, sendo uma figura caótica que até busca descansar, mas que é arrastado de volta a sua vida pela violência latente que parece tomar conta de todo aquele cenário. Peckinpah não glamouriza os tiroteios; ele os transforma em rituais de fim de época, filmados em câmera lenta, com cortes abruptos e um senso profundo de fatalidade.

Porém, fora dos padrões dos finais caóticos e extremamente frenéticos que o diretor escolhe fazer, esse filme tem sua reta final calma e melancólica, um conflito que se encerra de maneira até que anti climática. Pat Garrett se torna o símbolo desse fim; não porque ele seja categorizado como um vilão, mas porque é o último homem disposto a se adaptar às novas regras. Billy, ao contrário, encarna o mito do fora da lei romântico, e por isso precisa morrer: não há mais espaço para ele na modernidade violenta e ordenada que chega.

Quando Pat Garrett finalmente encontra Billy no quarto escuro e o mata, o que mais impressiona é a ausência total de heroísmo. Não há duelo, não há gesto nobre, não há confronto épico. Garrett atira em Billy quase pelas costas, num ambiente íntimo, apagado, silenciado, um anti–clímax absoluto. Isso tudo para potencializar a visceralidade do tempo, que influencia aqueles que escolhem viver no passado, não concedendo algum tipo de redenção ou conforto, mas sim um destino trágico, mostrando que a suposta liberdade de Billy é uma mentira, e que a modernidade não tolera a existência de um espírito livre.