A coisa mais genial de Entre Facas e Segredos (Johnson, 2019) é a forma como Rian Johnson trabalha o sub-gênero do whodunit, que combina mistério clássico com comentário social mordaz, atualizando a tradição de Agatha Christie para o século XXI. De maneira narrativa, o filme subverte as expectativas do público, expondo rapidamente o que aparenta ser a “realidade” por trás do assassinado ao invés de guardar seus segredos até o desfecho, convertendo o mistério tradicional em uma espécie de anti-whodunit. O verdadeiro suspense não está em identificar o culpado, mas em descobrir de que maneira a verdade será alterada, encoberta ou distorcida, uma característica hitchcockiana que se alastra por todo o longa.

O suspense latente que Johnson constrói no primeiro capítulo da franquia parece se perder em sua sequência, em que o diretor opta mais por uma estrutura fragmentada e autoconsciente, brincando com versões contraditórias dos mesmos eventos. As verdades da narrativa não estão escondidas em pistas sutis esperando para serem descobertas por Benoit Blanc (Daniel Craig). Ela fica subentendida — ou pelo menos deveria ficar — sob camadas de encenação, discurso vazio (irônico) e idolatria ao poder. Afinal de contas, Glass Onion (Johnson, 2022) acaba sendo mais uma sátira sobre a burguesia ala Luis Buñuel e ao poder do que um mistério nos moldes de Agatha Christie. Abandonando essa subversão temática e estrutural, Vivo ou Morto retoma as características clássicas da trilogia, não sem contar com subtextos políticos e religiosos, sem nunca fugir do seu pilar principal: quem assassinou o Monsieur Jefferson Wicks? (Josh Brolin) 

Vivo ou Morto começa de forma muito parecida com Entre Facas e Segredos, com o protagonista da narrativa, o padre ex boxeador Jud Duplenticy (Josh O’Connor) apresentando em forma de narração os suspeitos de um crime que o espectador ainda não testemunhou. Por muitas vezes, o filme alterna entre passado e presente, de uma maneira que torna toda a trama de mistério um labirinto de acontecimentos que nunca se embaralha ou se perde em seus acontecimentos. O personagem de Craig ainda funciona como uma espécie de visão privilegiada dos eventos, sendo esse um mecanismo narrativo que conecta bem aqueles que assistem com o progresso da trama. Há momentos em que Blanc aponta certos detalhes que sempre conseguem te surpreender, e ainda por cima, gerar uma intriga pela resolução do caso.

A ironia visual da trilogia aqui atinge outros aspectos. Além de estilizar bastante seus personagens e seus cenários, Johnson faz um belo trabalho utilizando a iluminação, unindo os monólogos de seus dois protagonistas ao surgimento e ocultamento da luz solar. Conforme o diálogo avança, a encenação não flui de maneira isolada, ela é unida pelos feixes de luz solar que adentram a igreja, destacando os elementos filosóficos do cristianismo dentro da história, sendo eles representados pela figura do padre Jud. A estética católica e barroca é muito bem idealizada e construída dentro dessa ironia visual do diretor, sendo o maior exemplo a sequência da “Vadia Safada”, momento em que o diretor compreende perfeitamente como sua ironia é refletida em sua imagem.

Falando sobre os dois protagonistas, a química entre Craig e O’Connor é algo gratificante e cativante de acompanhar, algo que é potencializado pelos elementos cômicos e caricatos, que nunca perde a linha tênue entre o melodrama e a comédia. Há momentos inclusive em que as transições entre esses dois elementos se cruzam de maneira magistral, indo da graça até o emocionante, muito rápido, e muito bem realizado.

Vivo ou Morto é um ótimo terceiro capítulo, um filme que se utiliza das melhores características da franquia, abandonando a exacerbação narrativa das histórias de Agatha Christie e adotando uma melodrama cômico que vai dá risada até o emocionante de forma muito fluida.