ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS!!!
Demorei um pouquinho para dar atenção às séries tão comentadas que o diretor e produtor Mike Flanagan vem lançando na Netflix. E, com todas as suas minisséries assistidas, minha admiração por Flanagan como autor cresceu. Não quer dizer que gostei de todas essas obras; definitivamente não. Por sinal, tenho graves problemas com A Maldição da Residência Hill (2018) e com A Maldição da Mansão Bly (2020). Porém, ao perceber os riscos que correu ao ressignificar histórias de terror clássicas para contextos mais contemporâneos, além de conceber sua própria – e melhor – narrativa do zero em Missa da Meia-Noite (2021), foi impossível não admirar sua paixão por contar histórias a partir do audiovisual.
Mas o buraco em relação a A Queda da Casa de Usher, sua minissérie mais recente, fica mais embaixo. Afinal, trata-se da adaptação de um pequeno conto do mestre literário do horror gótico Edgar Allan Poe, passada nos dias de hoje e, esteticamente, demonstra ser sua obra mais distinta. Buscando uma aproximação bem rudimentar, é como se Succession (2018-23) se fundisse aos universos concebidos por Tim Burton e flertasse, aqui e ali, com a tragédia grega. A obra aborda, em três tempos diferentes, a história da companhia farmacêutica Fortunato, especificamente partindo de sua ascensão ao ser dominada pelos gêmeos Roderick (Bruce Greenwood) e Madeline Usher (Mary McDonnell) e culminando em sua queda, com a morte dos seis filhos, legítimos e bastardos, do primeiro, este que é acometido por uma doença degenerativa.
E, por mais que pareça, as informações do parágrafo anterior não são spoilers. Afinal, por adorar trabalhar com narrativas fragmentadas, Flanagan cria um paralelismo constante entre a formação do império dos Usher, as mortes consecutivas de seus descendentes e o estágio moribundo não apenas da Fortunato como também de Roderick em seu ato confessional ao assistente de promotoria Auguste Dupin (Carl Lumbly), que serve também como narração de todo o resto. A estruturação sagaz vai além, já que, com exceção do primeiro e do último, cada episódio dessa história foca em um de seus filhos, culminando em sua elaborada morte que, por sinal, parece sempre envolver uma misteriosa mulher chamada Verna (Carla Gugino).
Com isso, o showrunner não apenas justifica o formato seriado como também tira o elemento surpresa das mortes para focar em como elas são construídas pacientemente por uma presença ceifadora bizarra que está em diferentes elementos dessa narrativa. Sim, isso pode gerar uma sensação de repetitividade quando Flanagan cria momentos em comum para todos esses capítulos, como as aparições de cada filho durante o interrogatório de Dupin, mas, no geral, serve como uma ironia trágica ao dramaticamente humanizar esses personagens para matá-los logo em seguida.
Afinal, desde o início de A Queda da Casa de Usher, somos apresentados a uma família que parece descendente das criações de Charles Addams. Da cenografia extravagante aos planos compulsivamente simétricos ou estáticos, passando pelas vestes caricatas que remetem a personagens de quadrinhos. Na interpretação de todo o elenco, parece que Flanagan faz um grande esforço para extirpar daquelas pessoas qualquer traço de humanidade facilmente identificável. Esse, por sinal, aparece a partir das relações entre eles e pessoas de fora do sangue Usher, exploradas em seus respectivos episódios.
Porém, mesmo dentro de tais relações, o estilo de vida deturpado ainda se destaca a partir de uma visão satírica de toda essa situação. Daí, entramos em uma espécie de subgênero que está cada vez mais em alta e que eu gosto de chamar de “crazy rich people”. Essas são obras focadas no deslocamento de figuras da alta sociedade como uma espécie de sátira sociopolítica – e, sinceramente, não sou nem um pouco fã da previsibilidade quadrada que essa tendência tem tomado nos últimos anos.
Pois é aí que entra o elemento que mais me surpreende em A Queda da Casa de Usher. Pincelei antes sobre o fato dessa ser a minissérie mais distinta esteticamente de seu realizador, mas é quando Flanagan nos acostuma com seu tratamento cáustico da Família Usher que ele nos espanta ao retornar à sua típica abordagem melodramática e trágica das relações humanas. Afinal, há dois personagens no meio de tantos que jamais são encarados como caricatura: Dupin e o próprio Roderick. Afinal, são eles que protagonizam não apenas a narrativa que emoldura todo o resto como também aquela que demonstra sua construção no passado. A ganância dissimulada de Roderick que o faz ascender na Fortunato e o desgraçamento profissional de Dupin como detetive por conta desse ato do antigo aliado.
Ao entendermos essa dinâmica pessoal entre ambos, entendemos também como o confronto entre os dois na antiga casa dilapidada da família surge mais como a lamentação de dois companheiros sobre sua divergência passada do que como a bravata de dois rivais diante da oportunidade de se derrubarem. O conflito final de Roderick ao perceber quem (ou o que) é Verna é encarar a maldição do acúmulo de riquezas de sua família e como ele foi alcançado. E por mais que Flanagan verbalize essa ideia mais do que deveria na reta final, é de um encanto mórbido perceber como os atos de Verna (ou da Morte?!) praticamente criam uma parábola moral sobre a exploração dos bilionários no contexto mais recente de nossa história; exploração essa que ignora qualquer lastro de humanidade e parece enxergar pessoas como algoritmos ou cifrões.
Roderick, como explorado que se torna explorador, atinge o ápice de sua crise existencial em uma das melhores cenas de Flanagan, na qual o patriarca presencia uma chuva de cadáveres que formam seu império de destruição parasitária. Isso, somado ao assombro dos filhos cujas almas vendeu para a Morte, gera um desfecho ainda mais poético com a destruição da pequena casa dos gêmeos, que engole Roderick e Madeline. Dupin, ainda vivo, observa o Ceifador (na forma de um grande corvo) sobre os escombros, como se vibrasse por sua mais nova cobrança. Nem os titãs do capital podem fugir de sua foice, mas será que todos sentem sua agourenta presença? Eu, com certeza, espero que sim!