A Netflix já há algum tempo definiu bem seu estilo de produção: embarcar no hype de certos temas e fazer obras que parecem mais resultado de uma análise de algoritmo daquilo que mais empolga o público do que uma obra autoral em si. Por isso, não é como se eu esperasse muito de Guerreiras do K-Pop, cujo marketing mais parecia um aceno aos fãs do gênero musical do que qualquer coisa. Contudo, o longa está bem longe das piores produções do streaming, ainda que não apresente muitos aspectos que se destaquem.

No filme, acompanhamos Rumi (Arden Cho), Mira (May Hong) e Zoey (Ji-young Yoo), que formam o trio de k-pop Huntrix e, secretamente, são caçadoras de demônios. Assim, as integrantes devem proteger a Honmoon — barreira criada pelas caçadoras anteriores e responsável por manter os demônios longe da terra — por meio de sua força física e de sua música. Porém, tudo muda quando os vilões têm um novo plano: formar um grupo masculino de k-pop para roubar os fãs das Huntrix e desestabilizar as protagonistas.

Essa proposta, assim como toda a mitologia criada, é bem bobinha e despretensiosa, servindo muito bem ao restante da narrativa, que também é majoritariamente bobinha e despretensiosa, apoiando-se bastante num maniqueísmo mais tradicional e às vezes até parecendo uma versão simplificada e menos interessante do anime Demon Slayer (2019 – Presente). Por boa parte da trama, a direção busca apenas uma justificativa para aproveitar os ótimos design de produção e trilha sonora — esta última sendo o grande destaque, uma vez que ficou nas mãos do brasileiro Marcelo Zarvos e do grupo feminino Twice, que fez a excelente música Takedown.

Não tenho os mesmos elogios para os momentos em que a direção busca aprofundar mais seus temas. Até acho divertido o quão cafona são as metáforas relacionadas às dificuldades dos artistas de “mostrar quem realmente são” e dos fãs de aceitarem isso. Entretanto, esses trechos não vêm acompanhados de nada que seja realmente interessante, limitando-se a uma superficial menção ao tema da relação fã-artista, ameaçando adentrar nele, porém sem enfocar nada em específico. É nesse ponto que o longa perde algumas oportunidades, como satirizar de modo mais incisivo algumas práticas dos fãs, cutucar os que têm preconceito com o gênero mas que não têm a mesma resistência com as mesmas (ou piores) práticas quando elas ocorrem nos demais gêneros, entre outros.

Desse modo, Guerreiras do K-Pop acaba fazendo somente duas coisas: falar com aqueles que já são fãs; e promover o gênero àqueles que não são familiarizados. No restante, tem a seu favor o visual lindíssimo e a primorosa trilha sonora, escorregando toda vez que tenta se levar mais a sério do que isso. Apesar de não estar entre as piores obras da Netflix, ainda é uma produção do streaming, e carrega certos vícios resultantes da padronização por ele promovida.