Em um cenário de Hollywood em que a crise do cinema vem sendo cada vez mais debatida, do advento dos streamings a uma longa discussão sobre o papel da inteligência artificial na arte, passando pela pandemia de COVID-19 e pela greve do SAG-AFTRA, muito foi discutido sobre como a indústria de cinema norte-americana vem conduzindo sua produção de forma insustentável com a insistência de superproduções que apostam em um incerto lucro – o que é bem diferente da simplista ideia de “sucesso”.

Quando um filme como O Afinador lança não em um aplicativo de streaming mas sim nas telonas, percebemos que alguns artistas e estúdios estão tentando recuperar uma certa “cultura do médio orçamento”, que foi sendo perdida ao longo da década passada. Afinal, o filme de Daniel Roher – cineasta documental reconhecido depois de ganhar o Oscar por Navalny (2022) – seria facilmente lançado em uma Netflix da vida uns três anos atrás. E tudo bem, o filme custou 7 milhões de dólares; não é exatamente um orçamento tão curto comparado ao que vemos ultimamente, até mesmo em filmes oscarizados. Porém, a questão aqui é como ele reconhece sua simplicidade narrativa e parece bem mais barato do que um Moonlight (Jenkins, 2016), que custou apenas 1.6 milhão de dólares.

Mas, afinal, por que eu comecei falando sobre indústria e orçamento se esse texto não se trata de uma análise de mercado? Bom, um dos grandes problemas do cinema hollywoodiano ultimamente é tentar demais alçar voos que não consegue bancar e, quando demonstra um pingo de autoconsciência, é para fazer uma ironiazinha hipócrita como a típica pessoa que zoa o coleguinha por algo que ela mesma fez minutos antes. E talvez o maior mérito do thriller de Roher é justamente assumir essa simplicidade, em uma narrativa que lembra uma versão bem mais mundana e singela do recente Ladrões (Aronofsky, 2025) ou do já queridinho Em Ritmo de Fuga (Wright, 2017).

Com isso, não quero dizer que O Afinador seja um filme preguiçoso, acomodado ou mesmo desinteressante, apenas despretensioso o suficiente para poder conduzir sua narrativa básica com muito cuidado e sem apelar para qualquer tendência puramente para atrair um grande público. Estamos falando de um thriller que envolve, entre outras coisas, uma trama sobre arrombamento de cofres, mas que não conta com qualquer assalto a bancos ou explosivos que abrem um grande cofre com um estrondo que atrai trocentas viaturas policiais. A ferramenta do protagonista Niki (Leo Woodall) é sua hiperacusia – basicamente uma hipersensibilidade auditiva – que o ajuda a desvendar o código dos cofres, mas também serve como seu maior ponto fraco, já que até mesmo sua carreira como virtuose no piano foi afetada, gerando um grande trauma emocional.

Trabalhando como afinador de pianos com Harry, o velho amigo de seu pai (vivido por um Dustin Hoffman em impressionante forma aos seus 87 anos e com um carisma sempre afiado), Niki se envolve com um trio de assaltantes israelenses para pagar as dívidas de seu mentor e conhece uma bela e obstinada estudante de piano, com quem se envolve romanticamente por causa dos seus interesses musicais. A partir daí, temos a típica trama do homem bom que segue um mau caminho por necessidade e acaba querendo sair da vida de crimes para viver um relacionamento comum. As conexões temáticas que o roteiro de Roher e Robert Ramsay faz entre os diferentes gêneros que trabalha são inteligentes, conduzindo O Afinador por um drama romântico muito bem alinhado com o resto. Destaque também para Havana Rose Liu em uma personagem que serve justamente para ancorar Niki em uma vida simples e tranquila, muito real em suas reações e dúvidas, como na cena em que nega um presente “caro” por não entender em que ponto a relação está, tirando a narrativa de um ponto derivativo e mergulhando-a em um romance naturalista.

Já a presença de Hoffman, concentrada na primeira metade do longa, é tão bem conduzida por Roher no cotidiano de afinadores de piano que sua ausência mais para frente é sentida como um vácuo, como um amparo perdido para um protagonista que já se sentia injustiçado pela sua condição auditiva.

Por falar nisso, não dá para ignorar o elegante design de som, cuja mixagem é fundamental para a assunção subjetiva do protagonista, e a forma como Roher transforma os sons em imagem, com uma edição esperta de Greg O’Bryant, serve quase como setpieces de ação que não apelam para a grandiosidade, mas sim para a tensão dos detalhes. O único elemento do filme que desvia dessa elegância – e que talvez seja o que mais depõe contra ele – é seu desfecho atropelado. Eu entendo que um clímax explosivo desviaria da intenção, mas, nesse ponto, o filme parece sim se entregar ao desleixo. Afinal, tudo é resolvido de forma extremamente simples, quase sem grandes conflitos, enfraquecendo a ideia à la Irmãos Safdie do protagonista que acumula problemas em suas escolhas ruins. Aquele naturalismo proposto pela personagem de Liu, por exemplo, acaba se perdendo em um final tão idealista.

Dito isso, O Afinador é aquele filme pelo qual ninguém dá nada, mas justamente por se compreender simples e assumir essa simplicidade com humildade, acaba gerando uma simpatia inevitável. Que Hollywood aprenda a retornar para esse tipo de filme que, mesmo longe de ser obra-prima, não sonha em chegar minimamente perto de qualquer bomba blockbuster sem vida lançada nos últimos dez anos.