Conhecido popularmente online como “Kane Pixels”, Kane Parsons é um caso curioso e central na transição da cultura audiovisual na internet para o cinema mainstream nos anos 2020. Parsons começou ainda adolescente produzindo vídeos experimentais no YouTube, misturando o icônico horror analógico — um subgênero do terror, surgido principalmente no âmbito digital, que se utiliza da estética de mídias antigas como fitas VHS, transmissões de TV pixelizadas, câmeras de segurança, computadores obsoletos e outros — com trabalhos em CGI feitos em Blender e aparência de “found footage”. No ano de 2021, Parsons ganhou reconhecimento entre fãs de anime ao produzir curtas baseadas em Attack on Titan, nos quais a principal premissa era transformar certas cenas do anime em registros pseudo-históricos, como se fossem filmagens de guerra do começo do século XX.
O grande sucesso entre os internautas com suas obras se deu por sua originalidade formal e conceitual, que usava a linguagem digital para criar uma atmosfera de terror única. Em 2022, Parsons lançou o que seria o seu principal trabalho até então: o curta The Backrooms (Found Footage), filme inspirado na creepypasta das backrooms, um mito da internet sobre corredores infinitos e espaços corporativos vazios. Nele, o diretor constrói medo através do vazio espacial, dos ruídos mecânicos e da sensação de que o ambiente em si está errado.
Seus vídeos exploram o desconforto psicológico causado por espaços simultaneamente familiares e artificialmente desertos, sendo a principal manifestação dessas características a construção de seus cenários, como as longas salas no estilo de um prédio de escritórios, que se repetem de maneira aparentemente infinita, sem qualquer tipo de saída aparente. Partindo novamente dessa ideia, Parsons fez sua estreia no cinema comercial com Backrooms, um longa que busca dramatizar toda essa mitologia da internet para a adaptar ao cinema comercial.
Diferentemente das obras produzidas para o seu canal no YouTube, Backrooms apresenta, em sua primeira parte, uma narrativa bem clara e linear, sem aquela subjetividade que cercava as imagens e as tornavam assustadoras por si só. A história é simples e segue Clark (Chiwetel Ejiofor), um vendedor de móveis frustrado que recorrentemente se consulta com Mary (Renate Reinsve), uma psicóloga com um passado misterioso. Diante disso, Clark descobre uma passagem secreta no porão de sua loja, que o leva às backrooms, momento que marca uma transição para uma narrativa cujos componentes não conversam entre si.
Nos primeiros minutos, parece que o filme irá se basear em um subtexto de saúde mental para construir os aspectos psicológicos envolvidos no terror das backrooms. Essa premissa, entretanto, se perde rapidamente em meio ao amontoado de ideias que o diretor parece querer desenvolver. Nas sequências dentro dos corredores, a cinematografia muda drasticamente de momentos em momentos, alternando entre a forma tradicional e a filmagem em found footage; uma decisão criativa que aparenta apenas servir como um tipo de referência, em nenhum momento agregando esteticamente à atmosfera de terror.
Quando essa sequência se encerra e o longa parte para o segundo ato, Parsons abandona toda a atmosfera que as backrooms deveriam ter e passa a conceder mais enfoque nos conflitos psicológicos de seus personagens. Essa pretensão, porém, fica limitada apenas a seu conceito, pois todo o núcleo fica progressivamente confuso e incompreensível, soando como uma tentativa enfadonha de torná-la profunda ou narrativamente complexa. Isso deixa tudo tão dramaticamente nulo que dificulta ao espectador tirar algum tipo de interpretação própria, convertendo-se em uma simulação de subjetividade. Com isso, todo o longa acaba sendo vítima dele mesmo, ao tentar criar algo moral e psicologicamente ambíguo e acabar entregando só uma produção confusa e sem profundidade.
Backrooms é, desse modo, um mero experimento de terror psicológico que não sabe aplicar suas características únicas. Kane Parsons, aparentemente, se desprendeu da maior parte dos atributos de horror que fizeram sua contribuição com a lenda da internet ser relevante e apreciada, em prol de realizar um filme que, no objetivo de ser profundo, torna-se tão conceitual ao ponto de o próprio conceito se perder pelo caminho.