Cinema Marginal: O Teatro da Crueldade
No fim dos anos 1960, o Brasil passava pelo auge da Ditadura Militar. No cinema, isso significou uma rápida decadência da influência do Cinema Novo, que abriu mão de seu ideal revolucionário a fim de se render às regras do regime e se tornar comercialmente viável.
Insatisfeitos com a situação, cineastas como Rogério Sganzerla, Júlio Bressane, Neville D’Almeida e Ozualdo Candeias buscaram algo diferente: em vez de mostrar os caminhos da revolução, questionar tudo que o Brasil era naquele período. Como dizia Sganzerla, “Estou buscando aquilo que o povo brasileiro espera de nós desde a chanchada: fazer do cinema brasileiro o pior do mundo”.
Assim, procurou-se produzir um movimento de contracultura baseado na “estética do lixo”, recusando os padrões da época e construindo uma arte muitas vezes pouco coesa, escatológica, suja e sem amarras narrativas.
A seguir, a Plano Marginal indica sete filmes para conhecer o Cinema Marginal, abordando uma obra para cada diretor.

A Margem
O Rio Tietê aqui é como o Estige na mitologia grega, transportando as almas de um lugar para o outro. A Margem é considerado o divisor de águas para o que seria o Cinema Marginal, com a narrativa lúdica e experimental, personagens marginalizados, crítica social e com foco no que há de “feio” no mundo. A trama gira em torno de dois casais que vivem na beira do rio e se apaixonam, ambos em um sonho trágico.

Hitler 3º Mundo
Em uma realidade alternativa, cientistas criam um robô à imagem de Adolf Hitler para controlar o país e espalhar o fascismo. Eis que dois “heróis”, um samurai, interpretado por Jô Soares, e o Coisa, do Quarteto Fantástico, lutam contra este sistema. O filme adequa-se ao Cinema Marginal, pois é uma experimentação que vai além do visual, montando uma trilha de áudio bem peculiar. Além, é claro, da crítica ferrenha ao imperialismo e à ditadura.

Jardim de Guerra
O filme acompanha um jovem indeciso em relação ao próprio futuro, inserido em uma juventude fortemente influenciada pela contracultura que começava a se expandir na América Latina. Ele se apaixona por uma cineasta e, juntos, decidem realizar um filme. No entanto, ao aceitar entregar uma mala para um conhecido, o jovem acaba sendo preso por agentes da repressão e submetido a sucessivas sessões de interrogatório e tortura, sob acusação de terrorismo.

O Bandido da Luz Vermelha
Jorge, o conhecido criminoso real apelidado de Bandido da Luz Vermelha, assalta residências em São Paulo com técnicas peculiares e fugas inusitadas. O filme de 1968 é o principal da carreira de Rogério Sganzerla, a obra mais importante do Cinema Marginal e um dos longas mais relevantes da história do cinema brasileiro, sendo marcado pela narrativa bagunçada, pela narração intencionalmente tosca e pela sátira do cinema de ação estrangeiro.

Matou a Família e Foi ao Cinema
São várias as mortes anunciadas no filme, entre a do título, em que um jovem mata os pais e em seguida vai ao cinema, e a da jovem que mata a mãe autoritária que a critica. Júlio Bressane, um dos principais expoentes do Cinema Marginal junto de Rogério Sganzerla, demonstra, neste seu primeiro filme do movimento, a narrativa experimental e a crítica política por meio da destruição de símbolos e de uma visão melancólica sobre o futuro.

Meteorango Kid, Herói Intergaláctico
Lula é um estudante totalmente desorientado e descontentado. Um jovem completamente perdido que se vê em meio a manifestações, tentando ser ator, fumando maconha e vagabundeando por aí, sem qualquer perspectiva de futuro ou continuidade. André Luiz Oliveira tinha apenas 21 anos quando dirigiu o filme, uma obra revoltada que foi censurada pela ditadura e é tida como um dos filmes-chave do Cinema Marginal.

O Despertar da Besta
O longa narra o experimento de um psiquiatra que, ao estudar jovens marginalizados, decide submetê-los a experiências com LSD, acreditando que a droga revelará a verdadeira natureza humana. Durante os delírios causados pela substância, todos os pacientes são confrontados por visões extremas de sadismo, erotismo, culpa e punição. Muitas encarnadas pela figura simbólica de Zé do Caixão, que surge como um juiz final para os seus pecados.