O diretor e roteirista Lee Cronin, ao reimaginar a franquia da Múmia em Maldição da Múmia (2026), aparentemente entendeu que exotificar o Egito Antigo era muito demodê e, ao invés disso, propôs uma versão do monstro que parte de premissa de “E se o demônio fosse árabe?”. Longe de mim sugerir que Cronin tenha qualquer preconceito contra árabes, no entanto é difícil ignorar a semiótica da trama.
No começo do filme vemos a família feliz estadunidense em um dia comum de sua vida no Cairo, até que uma mulher árabe rapta sua filha criança de dentro do jardim da casa. Há sim toda a parte fantasiosa da história: essa tal mulher vem de uma família que carrega a maldição do tal demônio-múmia, e precisa da criança para servir de receptáculo para ele — que, na verdade, não é tecnicamente árabe, pois existe desde antes do Egito Antigo. Mas em nenhum momento vemos esse demônio agindo em qualquer outra época, de forma que sua associação é com uma família árabe egípcia contemporânea, perfeitamente normal. Portanto, no cenário geopolítico atual, em que os Estados Unidos financia o genocídio de árabes ali muito perto do Egito, é difícil não pensar no que poderia representar esse sequestro dentro do imaginário xenofóbico estadunidense.
Porém nem todos os personagens egípcios são vilões. Há também uma policial, que ajuda a família a desvendar o mistério do que aconteceu com a menina sequestrada. No início do filme ela até mesmo usa hijab, que parece servir para demonstrar que ela ainda está em início de carreira, subalterna aos seus colegas homens. Quando ela reaparece na história, depois de passados 8 anos, ela já é uma detetive da polícia e não precisa mais de qualquer indicador de sua cultura ou sua fé. Claro que na vida real existem mulheres de países islâmicos que escolhem, por qualquer razão, não usar hijab quando isso é permitido, porém, todos os detalhes de como os personagens são mostrados no filme foram escolhidos pela produção por um motivo.
Ignorando todas essas questões possivelmente sensíveis do filme, o que temos é uma trama básica de possessão demoníaca. A múmia é uma menina catatônica, com a pele machucada e envelhecida, unhas sujas e compridas, que tem rompantes de comportamentos estranhos que vão se tornando cada vez mais violentos à medida que o demônio se liberta. O papel do padre fica por conta da tal policial, a Detetive Dalia Zaki (May Calamawy), que é quem encontra a sequestradora e descobre o que exatamente aconteceu com a menina.
O drama da família ao encontrar uma filha desaparecida por 8 anos em um estado lastimável começa interessante, mas depois se torna repetitivo. Não passa muito dos pais tristes, culpando a si mesmos e um ao outro, brigando por conta disso.
Por outro lado, o suspense (que é todo o ponto do filme, afinal), é muito bem construído. As cenas se estendem pelo tempo ideal para garantir que o espectador conviva com a expectativa de que algo horrível está prestes a acontecer. Porém, essa construção é tão boa nas sutilezas, que acaba deixando a desejar quando o terror se torna mais maximalista ao final do filme, quando o demônio já está à solta é há todo o caos típico de filme de possessão. Não tem mais suspense, é apenas um emaranhado de efeitos especiais acontecendo na tela enquanto esperamos o demônio-múmia finalmente deixar o corpo da menina (e quem diz as palavras mágicas é a Detetive, pois é a única que sabe falar árabe ou algum idioma inventado que parece árabe).
Maldição da Múmia é um filme que provavelmente vai agradar aos espectadores casuais de filme de terror, graças aos vários sustos e bizarrices de sempre, e aos fãs da fórmula e da estética atual do gênero. No entanto, não há nada de novo ou de particularmente interessante em mais um filme de menina sendo possuída. E o fato de o demônio no caso não ser o demônio cristão, e sim um demônio carregado por gerações de uma família árabe, só adiciona ao clichê uma camada de xenofobia.