Seja rodeado por polêmicas sobre algumas cenas consideradas nojentas ou apresentando Sophie Ellis Bextor para as novas gerações, fato é que Saltburn foi assunto no último mês nas redes sociais. Descrito pela diretora Emerald Fennell em entrevista como “um filme sobre o primeiro amor”, a trama segue Oliver, um aluno bolsista na Universidade de Oxford — novo projeto social do lindo, rico e popular Felix. Essa “amizade” resulta em um verão de altas aventuras e esquisitices na mansão Saltburn, onde Oliver é bem recebido como novo mascote pela família disfuncional de Felix. Mas existe uma disputa pela atenção de Felix e pelo favoritismo dentro da família que vai trazer conflitos para a vida do pobre Oliver.
Como a fotografia escura e soturna de dentro da mansão denuncia: este não vai ser um filme tradicional de romance. Talvez um thriller sobre a obsessão de um homem por um amor difícil ou uma sátira sobre a vida sem noção da elite britânica. A verdade, porém, é que a mudança repentina de tom (entre a seriedade e a sétira) e a superficialidade são tremendas: o filme não é nada do que fora previsto.
Emerald Fennell é melhor como diretora do que como roteirista. Ela consegue construir cenas que em si são muito únicas e até sensuais (como a famigerada cena da banheira e a do vampiro), além de tirar o melhor de um elenco que já é excepcional. No entanto, presa em um enredo que não desenvolve personagens e é cheio de consequências sem causas (à exceção de uma explicação feita de qualquer jeito no final), Fennell não consegue explorar de forma coerente o mistério, o romance e a estranheza propostos, já que nunca sabemos as reais intenções do protagonista.
Por outro lado, a direção e cinematografia são envolventes: colocam-nos naquele ambiente de desejo da mansão, inclusive com a nostalgia trazida por músicas pop do passado, como Time to Pretend, do MGMT, e Murder on the Dance Floor, da já mencionada Sophie Ellis Bextor. Em vários momentos de diversão, embalados por música alta e filmados em câmera lenta, os ricos experimentam uma alienação intoxicante que somos levados a compartilhar.
No fim, Saltburn não é mais um filme “com mensagem”, como ressalta a diretora, mas sim uma narrativa sobre amor e sobre os desdobramentos desse sentimento em uma pessoa, no mínimo, excêntrica. Não há luta de classes ou algum ensinamento a ser tirado daqui. Mas estaria mentindo se dissesse que não curti a história da gay (ou bi) trambiqueira.