Nosferatu (1922), dirigido por F. W. Murnau, é um dos filmes mais importantes para o gênero do terror, por ter sido um dos primeiros a trazer a estética do cinema expressionista alemão para uma história de terror gótico. É curioso, portanto, pensar que o filme quase se perdeu quando teve suas cópias destruídas após uma ação judicial por parte de quem detinha os direitos autorais do livro Drácula (1897), de Bram Stoker, por conta de plágio. E não se enganem: a história de Nosferatu de fato é um plágio de Drácula, porém ousaria dizer que se trata de uma versão simplificada do livro.
Na Alemanha do século XIX, Thomas Hutter (Nicholas Hoult) é enviado por seu chefe, Herr Knock (Simon McBurney), para a Transilvânia, onde pretende vender uma propriedade na cidade (fictícia) de Wisborg, ao misterioso Conde Orlok (Bill Skarsgard). Enquanto isso, a esposa de Thomas, Ellen Hutter (Lily-Rose Depp), passa uma temporada com o casal Friedrich (Aaron Taylor-Johnson) e Anna Harding (Emma Corinn), acometida com um estranho sonambulismo enquanto espera o marido voltar. E logo o Conde Orlok (o Nosferatu), vai a Wisborg, nessa versão da história para encontrar Ellen, que ele atormenta em sonhos e visões há anos.
Com tantas adaptações existentes de Drácula para o cinema e até mesmo um remake do próprio Nosferatu, em 1979, dirigido pelo prestigiado Werner Herzog, é difícil imaginar o que haveria de novo para se contar dentro dessa história. A proposta de Robert Eggers para este novo remake foi a mais simples possível: trazer o terror presente no filme de 1922 e no livro para o público atual — depois de uma longa onda em Hollywood de filmes de vampiro que apelam mais para o drama ou romance.
Para além da atmosfera sombria trazida pela paleta de cores dessaturada — que mostra Wisborg como um lugar frio e cinzento — e pelo uso do escuro e das sombras, os temas abordados no livro original são trazidos aqui de maneira mais explícita — em especial a sexualidade. O puritanismo da Era Vitoriana, época em que Drácula foi escrito, pode parecer distante dos tempos atuais, porém sua (infeliz) influência sobre a sociedade é perceptível na maneira como ainda hoje são considerados tabus temas como a sexualidade feminina e quaisquer comportamentos divergentes do esperado dos papeis de gênero dentro do ideal de família tradicional. Assim como em seu longa de estreia, A Bruxa (2015), Eggers aqui explora não apenas o terror trazido pelo monstro, mas também o desconforto vivenciado pelos personagens ao serem confrontados com uma mulher que ousou não atender a expectativas — no caso de Nosferatu, na personagem de Ellen. Temas que antes eram compreendidos através da metáfora da mordida, do sangue bebido, são colocados de maneira literal: a influência de Nosferatu sobre Ellen a faz gemer durante a noite em seus delírios, e para que ele pare com as suas matanças ela precisa concordar em entregar o seu corpo a ele por livre e espontânea vontade. Embora Ellen seja coagida a isso, e, portanto, a ideia de consentimento acabe se perdendo, fica implícito na maneira como ela interage com o vampiro que há um forte desejo por ele, por mais que ela saiba que ele é um monstro e ame seu marido.
Mas não é apenas Ellen que é atormentada por seus desejos; Thomas também acaba sofrendo por sua necessidade de ascensão social a qualquer custo, que o faz aceitar a viagem à Transilvânia apesar das súplicas de sua esposa para que não o faça. Enquanto o terror da mulher é ser punida por sua sexualidade, o terror do homem é ver seu amigo — aqui na figura de Friedrich Harding — tendo uma situação financeira muito melhor e uma família mais perfeita, com sua esposa recatada e suas duas filhas. Nosferatu para Thomas representa a emasculação, a subjugação. Não apenas a mordida que vê em seu peito quando acorda no castelo de Conde Orlok sem se lembrar do que aconteceu faz alusão a estupro, como também chegamos a ver o vampiro mover-se nu sobre o corpo deitado de Thomas enquanto se alimenta.
O outro horror da Inglaterra Vitoriana, trazido por Drácula, era a ideia de uma colonização reversa, em que povos do oriente se infiltrariam na sociedade inglesa, transformando seus costumes e leis em algo considerado bárbaro. No entanto, em todas as versões de Nosferatu, a ideia de um monstro que se infiltra entre os humanos é perdida, já que o Conde Orlok não tem uma aparência exatamente humana e não pode andar na luz do sol. A adição, ,feita no roteiro original (e por conseguinte nos dois remakes), de Nosferatu trazer para Wisborg ratos que espalham a peste reforça a ideia do estrangeiro como uma praga, e inclusive permite interpretações antissemitas no filme original de F. W. Murnau. Em 2024, porém, é impossível pensar em peste sem lembrar a pandemia de 2020 e o preconceito e xenofobia contra chineses, que se intensificou. Embora Eggers não pareça fazer nenhum comentário específico sobre “o monstro que traz a peste”, ainda é possível observar esse medo da sociedade conservadora ser explorado em seu filme, juntamente com a maneira como enxergam o povo Romani, com quem Thomas se depara na Transilvânia, como alteridade — pessoas com uma língua que não se compreende, roupas e costumes exóticos.
Em Nosferatu (2024) é interessante observar como Eggers transforma Ellen na protagonista da história, é ela quem chama o monstro, quem se relaciona com o monstro e quem (spoiler?) vence o monstro. Por um lado, amamos quando uma personagem feminina tem agência, toma atitudes que interferem no rumo da história, ainda mais quando confronta os homens à sua volta ou fala com eles como uma igual. Por outro lado, porém, a mensagem que fica é um pouco questionável quando essa personagem (spoiler?) morre no final como mártir, quando o monstro, tão associado à sexualidade feminina, torna-se a causa de sua morte. No entanto, considerando Nosferatu (1922), em que a mulher é uma mera donzela em perigo, e o livro Drácula, em que o dia é salvo graças à família tradicional protestante, penso que o desfecho escolhido por Eggers foi o melhor possível.
A conclusão é que Nosferatu (2024) serve como uma ótima adaptação de Drácula para os tempos atuais, tanto na forma como lida com os temas quanto na implementação dos códigos que definem o gênero do terror (escuridão, estranheza, mistério, figuras monstruosas, etc); além de ser uma adição esplêndida ao terror gótico. A riqueza de detalhes na ambientação no século XIX transporta o espectador para aquela era e amplifica as angústias e medos vividos pelos personagens. A beleza das cenas seduz, ao mesmo tempo em que assombra; tal qual o vampiro, com sua voz grave e reverberante, tão ameaçadora quanto instigante. Os trevosos vão amar.