Tanto o terror quanto a ficção científica são gêneros que criam cenários fantasiosos para falar da nossa realidade, como indivíduos ou como sociedade, e explorar nossos medos e anseios ampliados nesses contextos. Alien: Romulus (2024) não é diferente. Com uma trama simples e sequências apavorantes, o filme, escrito e dirigido pelo uruguaio Fede Alvarez, traz muitas camadas de interpretação para os seus monstros.
O filme conta a história de Rain (Cailee Spaeny), uma jovem órfã que tenta viajar para outro planeta para ter uma vida melhor, e não ter o mesmo destino de seus pais, que morreram por conta do trabalho nas minas, ao qual as pessoas são obrigadas a se submeter. Rain tem um irmão, um android defeituoso da companhia Weyland-Yutani chamado Andy (David Jonsson), que foi programado por seu falecido pai para cuidar dela e fazer piadas. Ao ser impedida de viajar por, arbitrariamente, não ter cumprido as horas necessárias de trabalho, ela é chamada por seus amigos para infiltrar uma estação espacial abandonada da Weyland-Yutani e roubar as câmaras de criogenia necessárias para fazerem a viagem ilegalmente.
O planeta em que Rain e seus amigos estão é escuro, já que não se pode ver o sol, tudo parece gasto e até mesmo sujo; um gueto pós-apocalíptico que deixa claro na ambientação quais são as condições de vida dos personagens. Fica claro, portanto, não apenas através do texto, que “a companhia” não preza pelas vidas humanas, e não os vê como nada além de máquinas ou escravos para trabalhar. Parte do terror vem de pensar que essas pessoas não têm nada a perder: ou morrem trabalhando, como seus pais, ou morrem em sua viagem. No entanto, os personagens não contavam com o fato de que a estação espacial que encontraram estaria infestada de alienígenas prontos para usá-los como hospedeiros.
Se, no primeiro Alien (1979), já é possível ver alusões ao monstro como metáfora a estupro, aqui elas ficam ainda mais claras, com as formas fálicas que os alienígenas introduzem à força na boca dos humanos, e o horror de ter um corpo estranho dentro de si. A ideia da violação corporal, que já começa com o trabalho forçado para a companhia, é, portanto, colocada visualmente de maneira quase literal através do terror no encontro com os alienígenas.
A sensação de perigo é constante no filme. Os corredores vazios e mal iluminados da estação espacial, com portas que apenas o android Andy é capaz de abrir, parecem a princípio um presságio dos horrores que estão por vir. Os efeitos especiais dos monstros — com sua textura gosmenta, seu sangue ácido, e movimentos rápidos e fluidos — são talvez os melhores já vistos na franquia, sempre usados em sequências assustadoras ou empolgantes, que nunca tiram o foco da história ou parecem inconsequentes. As ideias de como enfrentá-los nas diferentes situações colocadas no filme, que vêm da protagonista Rain, sempre utilizam elementos já apresentados anteriormente, e isso traz ao espectador a sensação de que nada colocado em cena é por acaso.
Andy é o outro personagem que move o filme. A princípio o android é ignorante, inocente como uma criança, devido a sua programação simples, que lhe diz para apenas fazer o que for melhor para Rain (além de fazer piadas de tio do pavê, como forma de se conectar com os humanos). Logo nos é mostrado que os humanos têm preconceito contra os androids, por não serem humanos e em momentos críticos agirem de acordo com o que seria objetivamente melhor para a maioria, apesar das possíveis consequências trágicas. Esse é um tema recorrente no filme: qual o valor de uma vida humana; em que momento deve-se sacrificar uma vida pelo bem da maioria. E isso se torna mais presente a partir do momento que Andy recebe uma programação atualizada, vinda de um android quebrado encontrado na estação espacial, que não tem mais como prioridade o bem estar de Rain ou de qualquer outro ser humano, pois agora seu objetivo é sempre fazer o que for melhor para “a companhia”. Os riscos sempre calculados não prezam pela vida humana, e sim para a continuidade da pesquisa que estava sendo desenvolvida anteriormente na estação espacial, e muitas vezes ao longo da história nos perguntamos se não teria sido melhor ouvir as súplicas humanas sem hesitar, se o melhor caminho a seguir não seria o da empatia em vez de uma razão sem sentimentos. Fazer o melhor pela “companhia” (o capitalismo?) transforma Andy em algo, agora sim, muito distante de um ser humano.
Mesmo com tantos temas interessantes e possibilidades de interpretação, o filme perde a oportunidade de usar todo o seu potencial ao se encaixar nos moldes do terror slasher. Embora os personagens humanos não sejam muito complexos, eles representam o desejo rebelde de ir contra um sistema que os subjuga, e isso é algo pelo qual é fácil torcer. Porém logo percebemos que a maioria está ali apenas para servir ao propósito de morrer de formas inventivamente grotescas. Por mais que isso em alguns momentos aumente a sensação de pavor, em outros acaba diminuindo a tensão do filme. No entanto, mesmo quando lido como um simples terror slasher de ficção científica, é inegável que Alien: Romulus faz com maestria aquilo que se propõe a fazer.