Não é algo novo em Hollywood um ator de renome usar suas conexões dentro da indústria para fazer sua estreia como diretor (em filmes cujos orçamentos costumam ser impensáveis para diretores iniciantes). Em meio à mediocridade que costuma emergir dessa prática, Zoë Kravitz é uma surpresa muito bem vinda. Em seu longa metragem, Pisque Duas Vezes (2024), a estreante mostra o quanto uma mulher negra tem a falar dentro de uma indústria majoritariamente branca e masculina — e faz isso em grande estilo!
Logo na primeira sequência do filme temos um ótimo uso da edição para estabelecer a personagem Frida (Naomi Ackie) em sua vida entediante no escuro de casa, olhando vídeos aleatórios que o algoritmo lhe entrega em sua rede social. Ela gosta de unhas decoradas e tem muita curiosidade em relação a um bilionário chamado Slater King (Channing Tatum), que conta em uma entrevista como resolveu se afastar de suas empresas para viver uma vida frugal em sua ilha privada.
Em seguida vemos que Frida é uma garçonete, e está prestes a trabalhar em um jantar oferecido pelo tal Slater King, com quem ela já havia esbarrado anteriormente em outro desses jantares. Após o expediente ela convence sua amiga e colega de trabalho, Jess (Alia Shawkat), a colocarem vestidos longos e agirem como convidadas do evento.
No momento em que Frida vai finalmente falar com seu crush, Slater King, ela cai no chão, e ele lhe estende a mão para ajudá-la a se levantar. É uma cena quase digna de uma novela coreana; com direito a câmera lenta e uma luz branca que ilumina Slater por trás, tornando-o uma figura mágica, como se Frida fosse Cinderela encontrando seu príncipe encantado. Slater mais tarde convida a ela e Jess para irem, junto de um grupo de homens e mulheres que se divertiam no tal jantar, à sua ilha privada, dando a Frida a oportunidade perfeita para viver seu conto de fadas.
E é assustador pensar em quantas mulheres na vida real, assim como Frida no filme, realmente acreditaram nesse conto de fadas.
A ilha logo de cara se mostra suspeita: há quartos iguais para todas as mulheres, onde elas encontram roupas iguais (todas na cor branca), e um perfume feito da flor que é cultivada na ilha. Mas Frida logo descarta qualquer questionamento genuíno, tamanha é sua fascinação com aquele estilo de vida que nunca imaginou que poderia vivenciar. E o espectador presencia de maneira íntima essa fascinação, através dos planos detalhe que Zoë Kravitz escolhe colocar na tela. Vemos Frida apreciar cada detalhe da arquitetura e decoração do lugar, do jardim; sentir as roupas, o perfume; saborear as comidas dignas de restaurante com estrela Michelin que lhes são oferecidas o dia todo, as bebidas caras, as drogas.
Também através de planos detalhe, a diretora vai, aos poucos, nos mostrando pistas de que há algo de errado acontecendo; às vezes há sujeira embaixo das unhas decoradas de Frida, às vezes há marcas suspeitas nos corpos das mulheres.
No entanto, a atmosfera de culto hedonista de ricaços sem qualquer preocupação com a vida real segue inabalável; as repetições de padrões na montagem nos contam que vários dias igualmente agradáveis se passaram desde que Frida e Jess chegaram à ilha. O suspense é criado através da aparente alegria e diversão ininterrupta que se vive naquele lugar; está na pergunta que fazem constantemente a Frida: “Você não está se divertindo?”.
E a partir do momento em que aquela rotina não pode mais ser divertida para Frida, e ela começa a tentar investigar o que há de errado, essa proximidade física que temos dela através da câmera nos faz sentir seu medo de ser pega — tanto em sua busca por pistas quanto em sua tentativa de fingir que ainda está tudo bem.
Zoë Kravitz diz que começou a escrever o roteiro do filme ainda em 2017, inspirada pelas histórias assustadoras de abuso dentro da indústria que vieram à tona com o movimento #MeToo. Apesar de alguns elementos um pouco mais fantasiosos dentro da narrativa, que ajudam a estabelecer o filme como terror e não como drama, o fato de se tratar de uma situação tão real para as mulheres acaba potencializando o envolvimento da espectadora com o filme. E a visão de Zoë Kravitz sobre esses temas, mesmo dentro de um filme de gênero, traz um frescor muito necessário para Hollywood.