Os últimos dez anos no Brasil têm sido marcados por uma disputa política acirrada entre os social-democratas e a extrema direita. Isso resultou no golpe contra Dilma Rousseff, ascensão de Michel Temer e culminou na eleição de Jair Bolsonaro em 2018, que consolidou a ruptura que perdura até hoje. Esse é o pano de fundo estabelecido em Até Que a Música Pare, no qual somos apresentados a uma família católica desmontada pelos desentendimentos ideológicos. O casal Chiara (Cibele Tedesco) e Alfredo (Hugo Lorensatti) se despede do último filho que ainda morava com eles e, para preencher o vazio da casa, Alfredo arranja uma tartaruga para esposa.
Em um primeiro momento, a dona de casa estranha o novo bichinho, que se torna uma companhia enquanto o esposo trabalha fazendo entregas em cidades pequenas da serra gaúcha, e busca companhias que “saibam falar”. Entretanto, logo percebe que a neta prefere joguinhos de celular, a filha não quer encontrar o pai, o filho não tem tempo para um telefonema e as pessoas da cidade estão concentradas em suas funções diárias. Um dia, a carola Chiara encontra um jovem italiano vegetariano e budista que diz que as almas humanas podem encarnar em animais. Ela então passa a questionar a própria fé e acreditar que a tartaruguinha é a encarnação do filho morto. Desse modo a senhora cria um apego com o animalzinho e também resolve ficar mais próxima do marido, tanto para não ficar sozinha quanto para observar e monitorar melhor as atividades um tanto escusas dele.
Perceba que até agora nada foi falado das questões políticas que envolvem os personagens. É porque, por mais que seja a causa do sofrimento do casal, isso fica muito nas entrelinhas mesmo – é em um comentário da filha, ou numa notícia em uma TV ao fundo, ou até em diálogos sobre o filho falecido. A questão não é tratada em sua gravidade de forma frontal, embora, por outro lado, é claramente a causa da solidão de Chiara.
A quietude da bucólica cidade do interior combina com a escolha da tartaruga como o bicho de estimação, bem como com a dificuldade de diálogo entre os personagens. Além de se aproximar aos preceitos budistas que são encaixados aqui e ali na trama e causam a transformação de pensamento de Chiara. O ambiente também contribui para alguns momentos sobrenaturais, em que a protagonista ouve vozes e conversas na calada da noite.
Um aspecto interessante do filme é que é falado, em sua maior parte, na língua Talian – uma mistura entre o português e o italiano dos colonos, que se tornou língua oficialmente em 2014 – que acentua ainda mais a distância dos personagens dos filhos e principalmente da neta, falante do português. O Talian é falado principalmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, com um número de falantes estimado em meio milhão de pessoas.
Com uma fotografia e edição clássicas, o filme conta uma história emocionante sobre o luto e a solidão na terceira idade – com uma pitada de religiosidade no meio –, por outro lado, a narrativa falha sobre como a ideologia política (e por extensão a ascensão da extrema direita e as notícias falsas) afastaram as pessoas e impossibilitaram o diálogo.