Christopher Reeve é um daqueles atores que fez um trabalho tão cuidadosamente impecável, que ficou para sempre associado a um personagem emblemático, neste caso, o Super-Homem. Este documentário parte dessa ideia para apresentar e analisar o que havia de “super” e de “homem” na pessoa, filho, pai, esposo, ativista Christopher Reeve, para além do ator e ícone de gerações, mostrando as vulnerabilidades e entendendo o espírito quase inabalável do astro.
O documentário logo de início mostra, em uma montagem narrada, um pouco da carreira do ator e já fala do acidente e suas consequências. Caso alguém não saiba, em maio de 1995, o intérprete do Super-Homem em quatro longas sofreu um acidente em uma competição de hipismo, em que o cavalo refugou e ele caiu de cabeça, fraturando a primeira e a segunda vértebra. A lesão da medula espinhal sofrida por Reeve causou tetraplegia e insuficiência respiratória, fazendo com que ele além de perder o movimento dos membros também precisasse de uma máquina de respiração artificial.
A edição não segue uma ordem cronológica de eventos, indo e voltando do momento do acidente e suas repercussões para os estudos na Juilliard, com o melhor amigo, Robin Williams, a escalação em Superman e outros desdobramentos da carreira de Reeve. Na decupagem são usadas principalmente cenas de filmes, trechos de jornais e entrevistas em programas de televisão, vídeos caseiros, principalmente com a esposa Dana e o filho caçula Will, e entrevistas atuais com familiares e amigos próximos do ator – entre os famosos estão Susan Sarandon, Glenn Close e Whoopi Goldberg. Além disso, o filme ilustra situações e emoções a partir de uma estátua do Super-Homem, iluminada e decomposta de acordo com o que está sendo dito no momento.
Essas escolhas trazem dinamismo visual para a narrativa do documentário, que em nenhum momento é maçante e que por mais que evoque emoções genuínas nunca se torna sentimentalista. E apesar de exaltar o amor pela atuação e o ativismo do ator (principalmente sobre pesquisas em células tronco), também não foge de tratar de assuntos que expõem facetas não tão legais de Christopher Reeve, como a relação com a primeira companheira e o casal de filhos mais velhos, bem como a vulnerabilidade do Homem de Aço quando ele sofre o acidente e não quer mais viver se for daquela maneira.
Além de contar com partes em que o próprio Reeve comenta sobre sua vida, o filme destaca a participação de dois personagens muito interessantes e imprescindíveis para a vida do ator, que são Dana Morosini, sua esposa, e Robin Williams. O comediante esteve presente durante toda a vida do amigo e o visitava constantemente, fazendo festas no aniversário do acidente para animar a família – entre as histórias contadas está a que ele foi o responsável pelo ator entender que ele ainda era ele mesmo e poderia viver com aquela condição porque ainda conseguia rir das piadas de Williams. Já Dana é mostrada como a grande companheira, cuidadora e porto seguro do ator (e dos filhos) durante os anos pós acidente, ela também o acompanhou nas campanhas para financiamento de pesquisas e conscientização sobre paralisias e doenças relacionadas. O discurso dos dois durante o velório do ator, que faleceu em outubro de 2004, é o ápice de emoção em um longa já comovente.
É um filme lotado de boas histórias e anedotas sobre Christopher Reeve, como o receio de virar um ator “vendido” e de não agradar o pai por ter aceitado um papel em um filme de herói, ou o jeito que ele conheceu Dana enquanto ela cantava em um bar, bem como a saga para viajar até o Oscar com uma cadeira de rodas adaptada, São diversos episódios emocionantes que constroem o legado de um homem fantástico com todas as suas falhas e fragilidades.