Um filme que une diversas figuras do folclore e mitos específicos da Estônia, ao mesmo tempo que trabalha temas universais como ganância e amor não correspondido: este é Novembro, adaptação de um romance de 2000, chamado originalmente de Rehepapp ehk November, de Andrus Kivirähk. Assim como no livro, o longa explora vários encontros inusitados ou macabros com o sobrenatural, vividos pelos membros de uma pequena vila do país, no século XIX, mas segue principalmente a Liina e sua busca por amor e liberdade.
Com a fotografia inteira em preto e branco – e aqui o contraste é bastante enfatizado, ao ponto da imagem por muitas vezes fugir de tons médios de cinza – o filme começa com um kratt roubando um bezerro do vizinho, indicando logo que essa comunidade não é a mais amigável e que coisas fantásticas são comuns por lá. Os kratt, por exemplo, são criaturas mitológicas feitas de feno e/ou objetos de uso cotidiano, como ferramentas, e recebem uma alma através de um pacto de sangue com o diabo. Eles então fazem tudo o que o seu senhor mandar, tendo que estar sempre trabalhando para que a alma da pessoa não seja recolhida pelo diabo. O uso dos kratt causa uma estranheza, porque são seres sem rosto e com movimentos estabanados e um pouco imprevisíveis – feitos em stop motion aqui – além de frutos de um pacto maligno.
Outras criaturas também visitam ou vivem no vilarejo, como bruxas, lobisomens, espíritos, a personificação de uma praga, além, é claro, do diabo. No livro, essas aparições são estruturadas a partir dos dias do mês, cada capítulo é um dia e possui acontecimentos diversos, com personagens diferentes também. Já o filme, entretanto, não tem uma linha cronológica bem definida, com as situações e aparições apenas se amontoando de cena em cena, a solução da direção foi criar um fio condutor por meio da visão e desejos da personagem Liina (Rea Lest), que fará de tudo pelo amor de Hans (Jörgen Liik) e para sair da casa do pai, que planeja o casamento dela com outro.
Por outro lado, a narrativa dá espaço para todo o elenco de personagens ter o seu momento, expressar suas motivações e participar dos contos de fada de Novembro. Com isso, vemos aquela comunidade se destruindo pela ganância e busca por vantagens sobre os vizinhos, ao mesmo tempo que unem-se contra inimigos comuns. Nada parece importar muito, as coisas são o que são e vão se repetir nos próximos invernos.
O longa é primordialmente uma fábula, mas os elementos de terror também são muito eficazes para criar uma apreensão pelo que vai acontecer. Além da estranheza já mencionada, os perigos chegam pela noite escura com sons estridentes e uma música soturna que simula um pouco os sons típicos da floresta, como o vento e o estalar das árvores. A fotografia em preto e branco contribui também para o clima sombrio invernal, além de ser belíssima, com enquadramentos que parecem pinturas.
Apesar de ser um típico “folk horror” quanto a narrativa, é distinto de outros filmes do gênero no modo como a história é contada, para além dos temas muito específicos do folclore estoniano e da ausência de cores. A decupagem pouco preocupada com transições suaves e passagem do tempo, mais emocional do que racional, se destaca. É um longa frio e exuberante.