Extraordinário (Chbosky, 2017) é um filme, baseado em um romance de 2012 da escritora estadunidense RJ Palacio. A história é sobre um menino, o Auggie (Jacob Tremblay) que sofre de uma doença chamada síndrome de Treacher Collins, que causa deformidades no rosto, e passa a estudar em um colégio particular. Lá ele sofre bullying, por causa de sua aparência, de um riquinho mimado chamado Julian (Bryce Gheisar) e dos amigos dele. Em Pássaro Branco, a sequência spin off de Extraordinário, escrita pela mesma autora em 2019 e adaptada agora para o cinema, Julian foi expulso do colégio e está arrependido das atitudes que teve com Auggie. Com a dor e a vergonha da culpa pelo bullying, ele então tenta passar despercebido pelo novo local durante o primeiro dia de aula.

O filme, porém, não é exatamente sobre o jovem lidando com as consequências dos próprios atos. Logo que ele volta para casa encontra a avó Sara (Helen Mirren), e ao iniciar uma conversa sobre a escola, ela resolve dar uma lição sobre gentileza para o neto e começa a contar sobre a adolescência dela como judia refugiada durante a ocupação Nazista na França, durante a Segunda Guerra Mundial. Dessa forma, a narrativa muda o foco e acompanha Sara em 1942.

A partir desse ponto, o longa se separa completamente do primeiro e vira uma história sobre a perseguição do judeus e holocausto. Uma coisa interessante é mostrar que a segregação, as prisões e transferências para os campos de concentração foram acontecendo de forma gradual e também a passividade e o medo da comunidade geral sobre isso. Outro aspecto bem apresentado é como os nazistas cooptaram os jovens das regiões ocupadas para usá-los como informantes e milícias locais – bem como o que acontecia com os que se recusaram ou tentaram ajudar os judeus.

Sara e os pais são perseguidos e um dia, enquanto estava no colégio, a cidadezinha francesa recebe ordens para transferir todos os judeus para prisões nas montanhas. Ela não sabe o que acontece com a família, mas com a ajuda de professores e de um menino, chamado Julian (Orlando Schwerdt), que precisa usar muletas por consequência de uma poliomielite. Ela inicialmente excluía o menino, que sofria bullying no colégio por ter deficiência e ser filho de um trabalhador dos esgotos da cidade. A contar desse momento, Sara é escondida e protegida no celeiro da família de Julian, com quem cria uma relação profunda de afeto.

A necessidade de recorrer a uma situação extrema e antiga, como a perseguição aos judeus pelos nazistas, para ensinar crianças sobre gentileza, me pareceu um pouco exagerada. Entretanto, não deixa de ser obviamente eficaz em estabelecer vilões e heróis, que venceram as adversidades, e um perigo muito cruel e real, pela união e o amor pelo próximo. Neste ponto o filme consegue equilibrar a leveza com o drama de uma forma bonita, que remete também a menção do pássaro branco do título como um símbolo de esperança em meio à tristeza e ao medo. Mas ainda assim corre o risco de ser entendido como uma história que não leva a sério o sofrimento desse povo.

Imagino que o cenário da Segunda Guerra Mundial e o holocausto seja uma das violências por racismo e segregação que é mais aceito como algo realmente ruim por mais pessoas, por isso a escolha aqui, da escritora original, de ir pelo caminho “mais fácil” para explicar para crianças que o bullying é ruim. No entanto, não acho que o filme passa muito bem essa mensagem de empatia ao criar uma condição extraordinária para que Sara aprenda a ser uma pessoa mais gentil.