Razões Africanas é um documentário brasileiro que explora as conexões entre três ritmos musicais típicos de países das Américas: o blues nos Estados Unidos, a rumba em Cuba e o jongo no Brasil, com suas origens em países africanos, no caso Mali, Congo e Angola, respectivamente. Para contar essa história, o filme vai e volta por esses seis países acompanhando principalmente três pessoas: o americano Terry ‘Harmonica’ Bean, a cubana Eva Despaigne e a brasileira Lazir Sinval.
Embalado por muita música, o longa desenvolve essa premissa contando as origens de cada ritmo e o que está sendo feito para preservar a história e memória dessas manifestações culturais. Para isso, intercala as entrevistas com performances musicais e muita dança, além de imagens das pessoas e ambientes de cada lugar, para nos colocar como espectadores e participantes de cada atividade – especialmente no jongo e na rumba.
Além de passear pelas histórias musicais de cada ritmo, um aspecto interessante do documentário é o impacto cultural nas Américas da música africana, mas principalmente como eles se transformaram em manifestações particulares de cada país. Em Cuba, por exemplo, Eva ressalta que a rumba é uma mistura de África e Espanha e que originalmente os tambores eram tocados apenas por homens, tendo um ritmo específico em que as mulheres sequer participavam, e hoje existem grupos somente de mulheres tocadoras. Já nos Estados Unidos, Terry valoriza a influência de Robert Johnson, e como ele popularizou a maneira como o blues é tocado ainda hoje e como, por causa do que diziam dele, ficou conhecido como “a música do diabo”. No Brasil, Lazir fala principalmente da ancestralidade do Jongo da Serrinha, sobre o que foi e é feito para preservar a cultura e também unir as comunidades do jongo espalhadas pelo país.
No entanto, nos três países africanos, a narrativa não é tão bem construída — o que sobra de didatismo nas Américas falta um pouco aqui. O mais curioso é que a diversidade e misturas foram tão significativas que o blues, a rumba e o jongo pouco parecem com o que é tocado na África hoje, mas ainda possuem raízes notáveis pelos sons dos instrumentos e pela dança. Fora isso, a parte africana pouco acrescenta ao documentário. Além disso, os contextos históricos que resultaram na diáspora africana e a presença na Américas são explicados em entrevista com a professora da UFF, Ynaê Lopes.
Por fim, a edição tem como ponto forte nos deixar embalados pelas músicas, porém o vai e volta abrupto para cada local por vezes confunde e desconecta os sons e as conversas. A direção também tem escolhas inusitadas que causam estranhamento, como a parte dos Estados Unidos ser toda em preto e branco e somente a parte africana usar mapas de onde são as cidades e bandeiras dos países. Dessa forma, o documentário ainda prende a nossa atenção pelo conteúdo, mas perde na construção narrativa.