Baseada em uma história contida nos apêndices de O Senhor dos Anéis, a animação dá nome a, apenas mencionada filha, do rei Helm Mão-de-Martelo, de Rohan, e a transforma em protagonista da narrativa que se passa 183 anos antes dos eventos do romance principal de J.R.R Tolkien. No filme, a princesa Hera é uma jovem aventureira, que gosta de cavalgar até os limites do reino e admira as Shieldmaidens: uma parte do exército de Rohan composta por mulheres em tempos de escassez que foi dissolvida com o passar dos anos.
O reinado de Helm é ameaçado quando o líder, Freca, dos homens das Terras Pardas, que participam dos conselhos de Rohan, propõe que seu filho, Wulf, se case com Hera para manter a paz. Caso contrário, iriam atacar. No entanto, a princesa não aceita a proposta e o soberano não aceita a intimidação, iniciando assim o conflito. Há paralelos entre a corte de Rohan que conhecemos em O Senhor dos Anéis, sendo Helm teimoso, corajoso e egocêntrico como Théoden e Hera insatisfeita com a posição de dama imposta a ela, bem como habilidosa com a espada, como Éowyn.
Apesar do longa ser previsível a partir dessa premissa e, inclusive, ao usar falas e acontecimentos específicos presentes nos apêndices, a protagonista é interessante, bem desenvolvida e uma bela adição em um universo com poucas mulheres. A posição de liderança de Hera é adquirido aos poucos ao longo da narrativa e merecida. Ao mesmo tempo – com a mesma nobreza de Aragorn, no romance principal — ela deixa claro que nunca desejou estar neste lugar mas fará o que for preciso por Rohan.
Da mesma forma que a personagem funciona como bastião do povo dentro da história, ela também é quem gera interesse em uma narrativa que por vezes é boba. Em diversos momentos as soluções são muito fáceis e sem tensão, como o momento na fortaleza inimiga, bem como há situações que parecem ser estabelecidas para uma retomada posterior, mas nada ocorre, como o que acontece na floresta, por exemplo. Mesmo a conclusão cai nessa simplicidade facilitada por uma sequência de fatos óbvios e previsíveis, o que tira um pouco do brilho dos personagens e da bela animação.
A escolha de fazer a animação em estilo anime, aliás, talvez seja o maior acerto da produção. Além de se diferenciar do design mais limpo que virou costume em grandes estúdios, como Disney e Dreamworks, ou da mistura de estilos da Sony, aqui a dramaticidade dos animes é usada para criar a gravidade necessária à guerra, deixando claro que não é para crianças. O traço parece de desenhos japoneses mais antigos, da década de 1970-80 (obviamente feitos com técnicas atuais), como Rosa de Versalhes(Tezuka, 1979) ou Nausicaa do Vale do Vento (Miyazaki, 1985). Além disso, todos os personagens masculinos jovens são bishonen (palavra que resume “jovem atraente”). Outro destaque é a mistura de cenários e paisagens realistas, que parecem pintura a óleo, com o traço de anime reservado para o que se move na cena, como pessoas e animais.
Por fim, o saldo é positivo. A ideia de contar histórias soltas da Terra Média em animação é ótima pois a produção pode ser feita de maneira mais independente, rápida e sem prender em uma continuidade eterna – me lembrou a série Star Wars Visions, que tem premissa semelhante no universo da galáxia muito, muito distante. Espero que vejamos mais filmes como este, seja com personagens novos ou não, bem como com estilos e direções diferentes. Material é o que não falta.