Ao concluir meu texto sobre A Substância (Fargeat, 2024), comentei que aquele era um filme de terror que representava um respiro numa década que, ao meu ver, é a mais covarde do terror hollywoodiano. E o primeiro Sorria (Finn, 2022) é um exemplo oposto, um sintoma dessa covardia, já que o cineasta Parker Finn apresentava um conceito instigante, com claras semelhanças com o ótimo Corrente do Mal (Mitchell, 2014), mas não conseguia alçar voos maiores do que um thriller investigativo apático que, aqui e ali, apresentava um investimento formal minimamente mais arriscado.

Sorria 2 possui alguns problemas parecidos com o seu antecessor, mas devo dizer que me alegrou perceber como Finn parece assumir maiores riscos, mesmo que não o suficiente para fazer de sua sequência um grande filme. Seus vícios como diretor são patentes e prejudicam bastante o que poderia ser uma obra excelente, já que, aliado a uma fantástica performance de Naomi Scott, o longa apresenta um subtexto dentro do mundo da música pop que já o torna bem mais fascinante do que o primeiro simplesmente pela premissa.

Acompanhamos, aqui, a popstar Skye Riley após se recuperar de um acidente de carro que matou seu namorado um ano antes. Sentindo-se solitária, com dores constantes e tentando superar o vício em drogas que a fez se isolar socialmente, ela começa a perceber aparições estranhas, as mesmas vistas pela Dra. Rose Cotter no primeiro filme, antes de sua mais nova turnê.

Nesse contexto do cenário da música pop feminina em ascensão, com figuras cada vez mais conflituosas ao escrutínio da mídia e à fama sufocante e indiscreta, Finn parece ter um cenário perfeito para botar sua protagonista, uma diva pop quebrada física e mentalmente, como vítima de mais uma rodada de horrores. E é nesse ponto que está o melhor elemento do filme: a entrega de Naomi Scott, outrora conhecida apenas por papéis óbvios e sem muito charme, que aqui já deixa sua marca como uma das melhores scream queens da atualidade. Skye Riley é uma personagem complexa. E não digo isso a fim de mostrar como o filme é “mais do que apenas um terror”. Sua complexidade está atrelada ao terror que a afeta e o horror está inerentemente conectado a sua evolução – ou melhor, seu declínio – como personagem.

Com esse pano de fundo e uma protagonista interessante bem encarnada por sua intérprete, a jornada de Sorria 2 já se faz superior àquela de seu antecessor, e até mesmo os lapsos de criatividade formal e visual que aquele tinha, esse acaba potencializando. Se o filme de 2022 já trabalhava com planos longos para sustentar a expectativa de que algo ainda estava por vir, o novo mantém esse uso (a cena do espelho é bem conduzida) e vai além, iniciando com um plano-sequência protagonizado por Kyle Gallner que, mais do que apenas show-off técnico, serve à atmosfera caótica de toda a cena, como se comentasse o quão longe aquele personagem está disposto a ir para se livrar da tal maldição.

Porém, nem tudo são flores. Ainda é visível uma limitação de Finn como diretor na manipulação das cenas, por exemplo. Como comentei, o plano-sequência da introdução funciona, mas nem todos os planos longos aqui parecem ter muito o controle do cineasta, às vezes caindo, sim, nesse preciosismo puramente estético que não chega a lugar algum. O mesmo vale para as infindáveis panorâmicas da cidade de ponta-cabeça ou da trilha sonora bizarrinha. São recursos usados à exaustão a ponto de perderem qualquer impacto instintivo que possa ter no público; fica só entediante mesmo.

O mesmo vale para o equilíbrio entre o drama e a galhofa. A proposta da franquia Sorria por si só tem um potencial satírico muito forte, mas não parece que essa é a direção que os filmes pretendem tomar, sempre se aprofundando nos dramas pessoais e trágicos de suas personagens. O problema é que a condução de algumas sequências de horror acabam sendo decupadas de forma a provocar um riso involuntário. E, nesse sentido, dou destaque ao trecho do quarto de Skye mais próximo ao final.

Sorria 2 é bem melhor do que o primeiro e isso pode indicar sim uma evolução de Parker Finn como condutor dessa sua franquia original. Porém, ainda demonstrando muitas limitações, acredito que a série estaria melhor nas mãos de nomes como Sam Raimi ou James Wan, para citar apenas dois. Acho que temos aqui uma proposta que precisa explorar territórios corajosos e consistentes para, de fato, nos apresentar um grande exemplar do horror sobrenatural.