Ao ler comentários sobre Vingança (2017), primeiro longa da diretora francesa Coralie Fargeat, não é muito difícil encontrar certas queixas de lógica. Afinal, no ótimo filme de 2017, a cineasta “esticava” as possibilidades da jornada de vingança da protagonista Jen, como se a garota – outrora tão inofensiva – conseguisse sustentar ferimentos cada vez mais viscerais a cada encontro com a morte, representada pelos três antagonistas masculinos. Quando usa uma latinha de cerveja como cauterizante, tatuando absurdamente em seu corpo a fênix que estava desenhada nela, a ideia da diretora se esclarece; porém, ao invés de ser martelada como uma frase de efeito constante, é usada como pretexto para a consumação mais violenta do que o título prometia.

Eis que chegamos em A Substância, longa que retrata a jornada de uma atriz que cai cada vez mais no completo ostracismo devido a sua meia idade, já não possuindo mais os atributos físicos de uma juventude efêmera que conquistava, em especial, o público masculino – demográfica também representativa daqueles que controlam os meios da indústria audiovisual. Ao conhecer uma substância misteriosa que, de forma absurda, garante a ela uma clone mais jovem e sensual, a celebridade não hesita em usá-la, literalmente dando à luz uma bola de neve terrível que vai piorando cada vez mais aquilo que deveria ser absurdamente resolvido.

A genialidade de Fargeat aqui já começa antes mesmo de o filme existir, na escalação de Demi Moore. Outrora um símbolo sexual dos anos 1990, de sua inocente Molly em Ghost (Zucker, 1990) à vilã sedutora Madison Lee de As Panteras: Detonando (McG, 2003), passando por thrillers eróticos como Proposta Indecente (Lyne, 1993) e Striptease (Bergman, 1996), a atriz passou por maus bocados recentemente como mais uma vítima dos paparazzi e das colunas de fofoca.

“Aos 52 anos, Demi Moore exibe sinais da idade durante tarde de compras.”

“Aos 58, Demi Moore choca os fãs ao surgir irreconhecível em desfile.”

Com manchetes como essas e muitas outras explorando sua idade cada vez mais avançada e como isso, de alguma forma, era chocante ou surpreendente, Moore transforma a obra de Fargeat em uma espécie de reflexo trágico de sua própria vida, algo parecido com o que Michael Keaton havia feito em Birdman (Iñárritu, 2014) ou com o caso de Mickey Rourke em O Lutador (Aronofsky, 2008). Porém, o buraco aqui é mais embaixo, já que seu caso funciona como uma metonímia para todo um mercado que supervaloriza a juventude como atrativo estético e que tem, como principal vítima, as mulheres.

O que se desenrola a partir do uso da tal substância se assemelha a um pacto com o demônio ou a uma tragédia clássica daquelas que se baseiam em uma “faca de dois gumes”, como se Elisabeth Sparkle (Moore) tivesse feito um pedido mal formulado a um gênio da lâmpada e tivesse dado origem a sua própria ruína justamente tentando resolvê-la. Afinal, quantos casos conhecemos de celebridades que tentaram impedir a própria velhice com procedimentos estéticos e, consequentemente, foram pintadas como monstros horrendos nos tabloides por parecerem “remendadas” como uma Criatura de Frankenstein?

Nada melhor do que assumir esse body horror exacerbado à la David Cronenberg e seu A Mosca (1986) para expor essa automutilação constante gerada por uma indústria vampiresca que suga a vitalidade e a naturalidade de suas mulheres em busca de um padrão de beleza inalcançável, idealizado pelos homens (aqui representados por um divertido mas repulsivo Dennis Quaid). O antagonismo entre Moore e Margaret Qualley se torna triste e melancólico mais do que assustador em sua essência; afinal, são duas presas se digladiando para disputar quem vai definhar primeiro.

Tudo isso envolto por um jogo de aparências que impacta também na cenografia, com cenários que parecem ter surgido de Laranja Mecânica (Kubrick, 1971) dado o contraste entre as cores lavadas e aquelas que explodem de saturação, em um minimalismo decorativo que parece mais dar agonia diante de uma falsa organização que não existe na vida da protagonista. E não à toa, os corredores da emissora em que trabalha parecem mais um bunker claustrofóbico de impessoalidade do que um símbolo de conquista particular, até mesmo quando a belíssima Sue (Qualley) assume o controle, como se as paredes estivessem cada minuto mais propensas de esmagar sua recém-adquirida fama.

E não dá para falar de A Substância sem dar alguns dedinhos de prosa para seus controversos minutos finais, que podem ser definidos como um festival de bizarrices. Realmente, é difícil sair da sessão com uma ideia clara sobre a reta final que Fargeat constrói aqui, completamente sem pudor de agredir os sentidos de seu público e com uma espécie de humor mórbido e macabro que parece esfregar na cara do mesmo todo o caos incontrolável no qual as escolhas de Elisabeth culminam. Admito que eu, mesmo adorando o que o filme tinha me apresentado até ali, fiquei em dúvida se esse desenlace comprometia a ideia geral da obra, se era um fetichismo barato para soar “diferentão” ou chocar gratuitamente.

Porém, ao fechar com um um plano da Calçada da Fama que espelha aquele que abre o longa, a diretora conclui sua obra-prima de forma ainda mais perversa na retratação do ostracismo de Elisabeth. Mesmo com toda a terrível demonstração que se antecedeu, o resultado é voltar ao início, como uma estrela há muito esquecida, ignorada, pisoteada, rachada, como se nunca tivesse existido. Portanto, A Substância torna-se, desde Crepúsculo dos Deuses (Wilder, 1950), um dos mais impactantes comentários sobre a indústria predatória, a fama efêmera e a loucura que se instaura na busca por uma retomada da glória.

Só resta torcer para que Fargeat, uma das cineastas mais brilhantes de sua geração, tenha um destino oposto, atraindo cada vez mais público e investimento para suas ideias que, mesmo ensandecidas, jamais geram um mínimo de indiferença nesse cenário cada vez mais covarde do terror hollywoodiano.