A estética, tanto visual quanto narrativa, dos filmes sul-americanos indicados ao Oscar, geralmente demonstra um equilíbrio singular entre a identidade local e a compreensão internacional. Suas escolhas não são arbitrárias, geralmente atendem a uma dupla demanda: retratar realidades históricas particulares e, simultaneamente, interagir com um público mundial. De maneira geral, essas obras costumam tratar sobre a memória histórica de seus respectivos países, algo que indica tanto uma característica autoral da região quanto uma expectativa da Academia, que geralmente valoriza obras que convertem temas políticos e sociais em formas narrativas que se assemelham bastante às do cinema estadunidense.

Essa predominância da forma hollywoodiana ganhou força a partir dos anos 90, onde o cinema sul-americano passou por uma transformação decisiva em sua linguagem formal, marcada por uma aproximação com o modelo narrativo cultivado no cinema dos Estados Unidos. Esse período coincide com a retomada de várias cinematografias nacionais, especialmente as do Brasil e da Argentina, após diversas crises econômicas e institucionais — muitas delas curiosamente causadas pelas interferências políticas da chamada “terra da liberdade” — e com a consolidação de um circuito global de festivais e premiações como o Oscar.

A vitória de O Segredo dos Seus Olhos (Campanella, 2009) no Oscar 2010, na categoria de Melhor Filme Internacional (na época nomeada de “Melhor Filme em Língua Estrangeira”), representou um momento significativo para o cinema argentino e para o cinema latino-americano em geral. A obra de Juan José Campanella superou concorrentes de peso, como A Fita Branca (2009), de Michael Haneke, e O Profeta (2009), de Jacques Audiard, apontado como o favorito em diversos círculos críticos. Essa premiação surpreendeu alguns críticos internacionais, mas também destacou um aspecto importante: a habilidade do filme de se conectar com diversos públicos, equilibrando uma narrativa melodramática e romântica a um suspense jurídico e investigativo, que gera reflexões sobre os limites da justiça institucional e da paixão humana.

O longa acompanha Benjamín Espósito (Ricardo Darín), um oficial de justiça aposentado que resolve escrever um romance baseado em um caso de assassinato que o marcou décadas atrás. Ao reexaminar o caso, ele recorda sua busca pelo responsável, as deficiências do sistema judiciário e sua relação pendente com Irene (Soledad Villamil), sua superior. O filme mostra como o crime foi caracterizado pela impunidade e pela violência política do período, enquanto Espósito busca algum sentido, e possivelmente redenção, para o caso e para sua própria existência.

A memória é a base da estrutura narrativa, apresentando idas e vindas no tempo e demonstrando como o passado permanece ativo no presente. Essa dimensão temporal não é somente formal, mas também ética, indicando que o tempo não é capaz de curar tudo; ao contrário, ele pode agravar feridas quando a justiça não é realizada. Nesse contexto, a obsessão de Espósito é tanto pessoal quanto histórica, algo que se espelha na Argentina antes da ditadura, um país assolado por um governo institucionalmente corrupto e passível de impunidades criminosas.

A investigação liderada por Benjamín Espósito não avança apenas por métodos racionais ou evidências concretas, mas por uma intuição essencial. O criminoso será desmascarado por sua própria tragédia: uma paixão ardente, que aqui se materializa como uma obsessão, que o torna reconhecível e passível de captura.

É nesse ponto, que o filme subverte a lógica tradicional da narrativa policial, se desfazendo da típica razão fria que desvenda o caso e dando lugar a uma percepção existencial da condição humana, e como o fascínio do assassino por sua vítima se torna a prova cabal de seu crime. Assim, a investigação principal não se limita ao crime específico, abordando também a falta de justiça em um país em que as instituições estão comprometidas. A dor do viúvo e a obsessão do protagonista espelham uma sociedade que não consegue superar seus traumas, pois nunca foram adequadamente processados ou avaliados.

Ao mesmo tempo, essa mesma força age sobre os personagens “justos”. Espósito é impulsionado tanto por sua paixão não correspondida por Irene quanto por sua obsessão pelo caso. A busca dele é permeada por desejo e arrependimento, e, dessa forma, a justiça deixa de ser um conceito abstrato e passa a ser algo profundamente íntimo. O criminoso não consegue deixar seu objeto de desejo; Espósito não consegue deixar o passado; o viúvo não consegue deixar a dor. Todos estão acorrentados. Nesse universo, a justiça não liberta; frequentemente, ela aprisiona ainda mais.

No fim, tudo em O Segredo dos Seus Olhos é sobre paixão: a narrativa amorosa de Espósito e Irene, o alcoolismo de seu amigo e até mesmo o assassinato que se torna o principal motor temático do filme. O foco não é a investigação, mas sim a justiça corrupta que age a partir de seus próximos interesses — ainda mais sabendo do contexto político da Argentina na época em que essa história se passa — e como o processo jurídico falha em punir os crimes desumanos. Além disso, o final além de chocar se forma intensa, oferece a imagem de um homem que amou além dos limites da humanidade, que sentenciou sua vida a uma longa tortura interna, em prol de uma única coisa: justiça.