A Noiva! é uma história original, inspirada por Frankenstein, escrita e dirigida por Maggie Gyllenhaal. A protagonista Ida, vivida por Jessie Buckley, é uma moça simultaneamente envolvida com a máfia de Chicago e informante da polícia na década de 1930. Eis que fica possuída pelo espírito de Mary Shelley, autora de Frankenstein: ou O Moderno Prometeu (1818), e por isso desacata o chefão do crime, Lupino (Zlatko Burić), sendo assassinada pouco depois. Enquanto isso, o monstro de Frankenstein, ou Frank (Christian Bale), pede ajuda para uma “cientista maluca”, Dr. Euphronious (Annette Bening), para que ele tenha uma companheira, e assim os dois desenterram e reanimam o cadáver fresco da moça, escolhida aleatoriamente no cemitério. A partir daí, a trama segue tanto uma investigação de assassinato (não o de Ida), quanto a vida do casal de párias fugindo de possíveis consequências de seus atos disruptivos e também criminosos.

Com essa premissa alucinante, o filme consegue em vários momentos trazer um tom anarquista e transgressor; assim como de liberdade feminina — inclusive demonstrado pelo figurino da Noiva, inspirado no punk rock de Vivienne Westwood do fim dos anos 1970. Por não estarem inseridos propriamente na sociedade, Frank e Ida (a qual, de início, não lembra da própria identidade e é chamada de Penny), podem viver e amar do jeito que quiserem, desde que não chamem a atenção. Porém, logo uma série de infortúnios faz com que o casal tenha que fugir das autoridades, com uma clara inspiração em Bonnie e Clyde (Penn, 1967). Portanto, o filme que era um romance gótico passa a focar mais no “aspecto máfia”, que já havia sido delineado no começo, e se transforma em uma espécie de film noir de gangster.

Essa mudança de tom, apesar de não ser repentina ou totalmente inesperada, é um exemplo de como o longa tenta explorar muitas ideias e acaba se perdendo em estrutura quando escolhe focar em diferentes subtramas e apaga um pouco da anarquia do início — e também nas próprias pautas que tenta abordar; sendo o maior exemplo disso o feminismo. Interessante ressaltar que vários papéis típicos masculinos, como cientista e detetive, são feitos por mulheres, inclusive mais maduras, o que é um ponto positivo; todavia, o discurso do filme cai muito em um feminismo branco já datado ao estilo “Quebrando o Tabu”. A protagonista, embora desperte um sentimento revolucionário em outras mulheres, não tem tanta agência na própria vida, estando vinculada a agenda de um homem que não foi escolhido por ela — o qual, além disso, tem uma súbita crise de ciúmes ao descobrir que ela teve um passado com outros homens. Dessa forma o que parece transgressor no começo, logo cai em um marasmo e com a moça, em vez de aproveitar a própria liberdade, tendo que acolher um homem inseguro — o que, apesar de lembrar, Bonnie e Clyde na ideia, na execução pende mais para um lado de Coringa: Delírio a Dois (Phillips, 2024).

Outro fator que contribui para esse discurso antiquado, é a inserção da autora Mary Shelley, também interpretada por Jessie Buckley, como uma possessão fantasma e ao mesmo tempo voz da consciência de Ida. É ela que incita as atitudes mais caóticas da protagonista e serve como um reforço (uma repetição, na verdade) dos temas do filme sobre as questões femininas. Esse artifício não influencia em nada a narrativa, sendo esquecido na maior parte do tempo, e só apresenta a autora como uma mulher rancorosa e não como a revolucionária que ela foi na vida real. É uma quebra de ritmo que demonstra pouca confiança no espectador, ao precisar sempre explicar com palavras o que já era visível em tela e um recurso que diminui mais ainda a agência da personagem principal.

Ainda assim, o longa brilha em certos momentos. Em especial, para mim, nas duas festas: a primeira em um beco da cidade, com luzes coloridas, música anacrônica e muita gente peculiar; ressaltando tanto a liberdade e felicidade recém adquiridas após a morte e ressurreição de Ida, mas também os espaços em que as pessoas à margem da sociedade unem-se para viver como preferirem. Na outra festa, mais tradicional e com pessoas da alta sociedade, o casal principal chega para desestabilizar os figurões e inicia um número musical que inspira outras mulheres a lutar contra o crime organizado. Ambas as cenas mostram, tanto em encenação quanto em edição – aliás, bela direção e fotografia, especialmente com uso das cores e o vestido laranja da protagonista sempre em contraste –, a anarquia e emancipação da personagem, que em diversos outros momentos é colocada em xeque, inclusive por seu parceiro.

Dessa forma, o que é sem dúvida um grande feito por ser uma história inédita e autoral, que toca em temas sensíveis e tem uma estética transgressora, ainda assim bancada por um grande estúdio e com diversos nomes de peso no elenco, acaba vítima da própria pretensão. Ao não ter um foco narrativo bem definido, tenta abarcar tramas diversas que não convergem, deixando a abordagem do universo temático superficial e, convenhamos, também enfadonha.