O radicalismo do cinema político de Glauber Rocha é algo que faz muita falta no cenário artístico do Brasil de hoje em dia. Por mais que grande parte da classe artística brasileira faça questão de marcar seu viés em determinada obra de arte, o que se destaca em Terra em Transe é como os filmes de Glauber apelavam por uma arte que falasse de situações urgentes do povo. Isso acabava sendo um dedo na ferida, tanto da direita quanto da esquerda, ao denunciar a impossibilidade de transformação do país por meios institucionais. Ainda assim, Glauber era capaz de traduzir seu pensamento por outros caminhos, de forma que seus filmes não fossem apenas meras obras panfletárias e de forma sem função. Pois esse não é um filme político. É um filme sobre política.
Seu protagonista é um personagem que vai sendo consumido por uma desordem total à medida que se envolve com as contradições das relações políticas de seu país; como um jovem revolucionário que se desencanta com a possibilidade de mudanças para o futuro da nação, por este ser fruto de uma ilusão desenvolvimentista. Ele poderia superar esses pensamentos e ir para soluções mais claras e objetivas; mas o diretor prefere que ele permaneça neste ciclo de incertezas para que, através disso, nós enxerguemos a complexidade das formas de poder que regem a nação, mas nunca pela nação. A poesia e a paranoia são os recursos mais inteligentes para mergulharmos nessa melancolia, onde o tempo se bagunça, os sentimentos são demonstrados quase como se ele se sentisse cada vez mais distante daquela realidade, mesmo querendo fazer parte dela; sem saber o como agir e a quem culpar.
No meio de tudo, estão as figuras principais que representam os dois lados da moeda da política institucional. De um lado Vieira (governador populista e reformista), do outro Porfírio Diaz (político reacionário e extremista). Glauber faz uma construção muito interessante do Diaz, pois ao mesmo tempo em que ele entoa suas falas e ações de forma teatral (o que deveria soar como algo caricato), ele é o único personagem do filme inteiro que é direto e assertivo em suas ideias. Em nenhum momento ele volta atrás e parece mudar de opinião nas coisas que diz, pois ele é o único que conhece como funciona a política e que compreende mais do que ninguém como um povo alienado é facilmente manipulado – o que o torna ainda mais perigoso. Já Vieira é mostrado como fraco; alguém que pertence ao cenário político onde foi inserido, vendido como popular, mas de forma insuficiente.
Sua abordagem vanguardista e formalmente pouco definida faz com que o filme permite diferentes interpretações a cada reassistida. Cada vez que você assiste ao filme, dentro de um intervalo de tempo prolongado, percebe detalhes e novas perspectivas que destoam das antigas, de certa maneira, e, ainda assim, é impossível assimilar o filme em seu todo. Pois o filme segue; e segue até um encerramento incógnito, onde a câmera corta e para de gravar, mas a história vai prosseguindo; como se o Glauber dissesse que a história ali não acabou, e ainda há muito o que fazer para uma conclusão definitiva.