Wallace, um inventor estabanado e de bom coração, e Gromit, um cachorro culto e muito esperto, são personagens feitos em claymation (técnica de animação em stop-motion, que utiliza massa de modelar, barro ou outros materiais igualmente maleáveis) — ambos criados por Nick Park. Apesar de existirem desde 1989, esta é apenas a segunda incursão da dupla em longa metragem. No entanto, a franquia dos estúdios Aardman já conta com curtas premiados, séries para a TV e spin-offs consagrados, como da ovelha Shaun — sem contar que o primeiro longa, de 2006, venceu o Oscar de melhor animação.

Nas histórias de Wallace e Gromit, em geral, o humano entra em alguma enrascada e tem que ser salvo de alguma forma pelo seu fiel companheiro. O humor é bem típico inglês, bastante referencial, com muito sarcasmo e críticas comportamentais, não deixando de lado o humor físico ilimitado que a animação proporciona. Gromit inclusive usa muito de expressões faciais e fisicalidade para se expressar, visto que não fala. O design de personagens e cenários também conversa bastante com a anglocidade da história: desde a roupa de Wallace, com camisa e colete, passando pelas ruas típicas de uma cidade pequena da Inglaterra, até as comidinhas e o chá.

Wallace e Gromit: Avengança segue todo o esperado de mais uma aventura da dupla. Essa não é uma sequência do longa anterior, Wallace e Gromit: A Batalha dos Vegetais (Box e Park, 2005), porém dá continuidade para a história do curta, de 1993, Wallace e Gromit: As Calças Erradas, em que os dois enfrentaram o pinguim ladrão e mestre dos disfarces, Feathers McGraw, pela primeira vez. Aqui o meliante é preso e levado para um zoológico, enquanto Wallace e Gromit são reconhecidos como responsáveis pela captura dele.

Com a intenção de ajudar Gromit nas tarefas domésticas, como jardinagem, cozinhar e fazer tricô, Wallace cria um gnomo robô, Norbot, mas o cachorro detesta a nova invenção do amigo. Ao descobrir a existência do gnomo, Feathers McGraw consegue hackear o robô e fazer com que ele construa vários outros como ele, que roubam a vizinhança a fim de conseguir materiais para o plano mirabolante do pinguim de sair do enclausuramento.

Por mais que já esteja acostumada, sempre fico admirada com o primor técnico que as animações da Aardman têm e a qualidade que sempre mantém. A volta de Feathers McGraw é uma ideia brilhante. Um vilão muito marcante pela inteligência, o olhar ameaçador e pelos disfarces simples, mas extremamente eficazes, para enganar os humanos. O humor é sempre um ponto alto — aqui tirando sarro dos policiais ineptos e da falta de expressividade dos gnomos robôs, mas também questionando quais são as atividades que não precisam ser substituídas pela automação. A ação também é bastante eficaz e grandiosa, especialmente em uma sequência longa de perseguição envolvendo bicicletas, barcos e até um trem.

Por outro lado, acredito que é necessário um certo conhecimento prévio da dinâmica da dupla e do tipo de humor que é feito no Reino Unido para aproveitar realmente o longa. Ele ainda assim é divertido, mas algumas referências engraçadas talvez passem despercebidas. Diferente do anterior também, que era uma homenagem aos monstros clássicos, esse é mais contido na própria franquia — que é de uma excelência excepcional. Fico muito feliz que esteja concorrendo a diversos prêmios por aí e torço para que a Aardman não fique sem matéria prima para seguir entregando filmes de qualidade.