Nesta segunda-feira, antes da Mostra Competitiva Nacional, tivemos o primeiro de cinco longas que vão participar da Mostra Caleidoscópio – que tem como proposta exibir filmes que desafiam convenções de gênero e do cinema clássico, apresentando características experimentais.

Nosferatu, de Cristiano Burlan, segue essa premissa à risca. Com um visual em preto e branco impactante e cheio de contrastes de luz e sombra, o filme evoca a figura do vampiro para dissertar sobre as dores da existência humana, bem como sobre arte, teatro e cinema em um misto de diálogos e monólogos emprestados de grandes autores clássicos. O visual do personagem surpreende ao deixá-lo mais humano, estilo tio Chico, da Família Addams.

Faísca

FAÍSCA

O curta dirigido por Bárbara Matias Kariri, do povo Kariri do Ceará, conta a história da ligação das mulheres da comunidade com as onças. Por meio de narração e imagens das mulheres, de todas as idades, fazendo seus trabalhos rotineiros e em momentos de descanso e brincadeiras, o filme relata como os animais conviviam pacificamente com os humanos da região, mas que foram sumindo aos poucos.

Em algum momento, uma delas tem o encontro com uma onça jovem, que a olha no olho e foge, mas a conexão, a faísca, já foi suficiente, já estava ali. As onças são parte daquelas mulheres, são a força e resiliência delas, que persistem em existir nas matas de lá.

Laudelina e a Felicidade Guerreira

LAUDELINA E A FELICIDADE GUERREIRA

Em um relato muito comovente, a diretora Milena Manfredini homenageia Laudelina de Campos Melo, militante comunista fundadora do primeiro sindicato das empregadas domésticas do Brasil. Por meio de narração em primeira pessoa, como se a própria Laudelina estivesse contando sua história, o filme relata a trajetória desta filha de pais alforriados desde sua infância, em Poços de Caldas, até os tempos de militância, ressaltando como as marcas da escravidão seguem presentes mesmo anos após a abolição.

Com uma montagem que une diversas imagens de arquivo, por vezes enfileiradas em uma coluna, a encenação representando Laudelina e também uma entrevista concedida por ela – sendo este o momento em que com a própria voz ela defende os direitos das empregadas domésticas. A pauta, tão atual quanto foi à época, não somente é pertinente, como muito bem contada através da história dessa mulher estupenda.

Quatro Meninas

QUATRO MENINAS

Em 1884, num internato para meninas brancas, as moças negras escravizadas cuidam dos preparativos para uma festa quando uma dela, Lena, que havia fugido para viver com um homem branco, volta inesperadamente falando para as amigas que o matou e agora quer ir para o quilombo Macaé. É com essa situação desesperadora que o longa de Karen Suzane inicia sua jornada.

Não demora para que Lena e mais três amigas se preparem para a fuga durante a cerimônia religiosa e os festejos da noite, porém elas são interrompidas por quatro sinhás que também querem se livrar das obrigações de uma dama no século XIX. Assim, as oito meninas se escondem em um casarão abandonado e esperam o momento certo para a fuga.

No esconderijo, enquanto as moças negras se reconectam com sua religião e ancestralidade, conversam descontraidamente sobre sonhos futuros e aproveitam o gostinho de liberdade, as jovens brancas ainda querem ser servidas e paparicadas. Com isso, vários conflitos adolescentes, e luta de classes de forma muito superficial, surgem entre os dois grupos, mas nenhum reflete a real gravidade de ser uma pessoa escravizada fugida nesta época e nem sequer o agravante de serem mulheres. A tensão vem do que a gente pressupõe baseado na historiografia e não em um real perigo na narrativa.

Além disso, quando as discussões parecem que vão atingir uma resolução catártica, ainda que conciliadora entre as meninas, o filme recua e faz com que o entendimento do grupo como mulheres acima de tudo seja feito de forma rasa e abrupta.