DIÁRIOS DE NAGI

Diários de Nagi

O filme do diretor Koji Fukada foi exibido pela primeira vez na Competição Oficial do Festival de Cannes desse ano, concorrendo à Palma de Ouro e à Palma Queer, chegando agora na Mostra Panorama Mundial do Festival do Rio. A trama foca em duas ex-cunhadas que se reencontram em sua cidadezinha natal, a Nagi do título, enquanto lidam com suas próprias solidões.

A direção aborda o estado emocional de cada uma dessas mulheres como se as paisagens de Nagi comentassem uma incomunicabilidade quase platônica, aliando suas jornadas a uma subtrama de autodescoberta jovem que encontra beleza em sua ingenuidade. Uma das cenas mais belas de 2026 surge justamente a partir da conexão entre as duas relações, em uma catarse sobre assumir seus reais sentimentos.

BEN’IMANA: FILHAS DE DEUS

Ben'Imana

Mais um filme vindo de Cannes, dessa vez da seção Un Certain Regard, esse primeiro longa-metragem da diretora ruandesa Marie-Clémentine Dusabejambo veio para o Festival do Rio na Mostra Expectativa, focada em cineastas internacionais ainda em início de carreira. A trama acompanha Vénéranda, uma das inúmeras vítimas do genocídio contra os tutsis, enquanto tenta remendar as feridas das mulheres de seu vilarejo, divididas entre parentes dos mortos e parentes dos executores.

A diretora não resume as figuras femininas de seu filme ao sofrimento passado, mas deixa claro o trauma ou a vergonha impressos em seus olhares, além de suas contradições provenientes deles. Vénéranda e sua irmã Suzane (fantástica performance de Isabelle Kabano) estão entre as personagens mais complexas desse ano de 2026.

O SERTÃO DAS NOSSAS MEMÓRIAS

O Sertão das Nossas Memórias

O terceiro dia do Festival do Rio começou especial, com o documentário de Lúcia Murat na Mostra Première Brasil, competindo na categoria de cinema documental. Com a presença da própria diretora, ela mesma uma militante dos anos de chumbo, a sessão ainda contou com alguns colaboradores da obra, que se trata de um road movie do Rio à Bahia, resgatando memórias de um massacre de militantes e guerrilheiros no sertão baiano.

A presença de alguns sobreviventes entrevistados no próprio Cine Odeon foi indescritível, emocionando o público e gerando manifestos a favor do candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva. Apesar de convencional em linguagem, é uma memória poderosíssima e pertinente ao ser lançada na véspera das eleições que podem determinar o futuro do Brasil. O cinema como memória e afeto é uma das maiores formas de resistência.

ELEFANTES NA NÉVOA

Elefantes na Névoa

Futuro representante do Nepal para a corrida pelo Oscar de Melhor Filme Internacional, o drama do diretor Abinash Bikram Shah também foi exibido em Cannes na seção Un Certain Regard e chega ao Rio na Mostra Expectativa. Acompanha os conflitos de Pirati, matriarca de uma comunidade Kinnar (mulheres trans inseridas em uma dinâmica familiar de afeto), entre seguir seus sonhos particulares e manter sua família unida, especialmente quando uma de suas filhas desaparece na floresta.

O recorte social explorado pelo longa é fascinante e a trama em si tinha potencial para um forte drama. Porém, passa a impressão de que os sentimentos são mais gritados do que comunicados pela imagem, o que se confirma quando poderosos planos são oprimidos pelo tratamento de luzes e cores da imagem, além da edição prezar por um realismo compulsório.

LADY

Lady

Presente no Festival de Sundance desse ano, no qual recebeu o Prêmio Especial do Júri para Elenco, o filme da diretora nigeriana Olive Nwosu também chega ao Rio na Mostra Expectativa, sendo seu primeiro longa. Acompanha Lady, uma taxista da cidade de Lagos que sonha em faturar o suficiente para visitar a cidade de sua mãe em Serra Leoa. Em meio a uma crise socioeconômica na Nigéria, ela passa a trabalhar no transporte de trabalhadoras sexuais, que inclui sua melhor amiga de infância.

O filme gera um paralelo interessante entre a jornada pessoal de Lady e o caos social nigeriano e começa bem na abordagem de sua relação com as prostitutas. Porém, sofre do mesmo problema em que a fotografia sabota todas as suas intenções e o desenvolvimento a partir de certa virada na trama soa extremamente apressado e mal desenvolvido.