O indicado sul-coreano para o Oscar de filme estrangeiro deste ano é baseado na história real do golpe militar ocorrido no país em 12 de dezembro de 1979, após o assassinato do presidente ditador Park Chung Hee, que governava por 18 anos. O longa utiliza nomes fictícios e preenche lacunas entre fatos, reimaginando o que ocorreu no fatídico dia que marcou o início da Primavera de Seul e também de uma ditadura militar que iria durar até 1987.

Passado em um período de poucos dias, o filme segue principalmente dois personagens, que lutam de lados opostos: o major general líder do golpe Chun Doo-gwang (Hwang Jung-min) – baseado em Chun Doo-hwan – chefe do Comando de Defesa e Segurança; e o major general Lee Tae-shin (Jung Woo-sung) – baseado em Jang Tae-wan – chefe do Comando Geral da Capital. Ambos tentam articular com seus apoiadores, tropas e políticos; um tentando consolidar o golpe de estado e o outro tentando impedi-lo. Boa parte do filme gira em torno dos telefonemas, das reuniões e conversas particulares de ambos os lados, além de ordens e contraordens a soldados.

Apesar de ser uma história real angustiante, a narrativa falha em criar essa tensão para quem, como eu, não sabia detalhes do contexto em que aquilo estava ocorrendo. Os diálogos andam em círculos e se estendem para além do necessário, enquanto a ação ou mesmo o embate de ideias ficam reservados para momentos muito pontuais. Também é difícil de compreender o que exatamente está em jogo se determinado lado vencer. O general golpista é claramente tratado como vilão, mas não fica claro se o outro lado defende a manutenção de um governo ditatorial ou uma transição democrática. No entanto, ao ler sobre o acontecimento real, é nítido que o general, aqui chamado Lee, é visto como herói na Coreia do Sul por ter-se oposto ao golpe até o fim.

Dessa forma, no filme, somos apresentados a políticos covardes, que buscam refúgio na embaixada dos Estados Unidos, e a militares dispostos a bancar uma guerra civil e até um possível reinício das hostilidades da guerra das Coreias – por poder, de um lado, ou honra, do outro. Isso tudo filmado da maneira mais burocrática e pouco criativa: com muito close up nos rostos, plano e contraplano, de vez em quando um zoom out aleatório e plano aberto estático.

O filme parece ter sido bem recepcionado na Coreia do Sul, com ótima bilheteria e até uma campanha que media os batimentos cardíacos das pessoas ao assistir o thriller. No entanto, acredito que, pela falta de conhecimento prévio e de criar empatia pelos personagens, houve uma dificuldade de traduzir a tensão dos acontecimentos para uma audiência que desconhece a história (que talvez nem fosse a intenção mesmo) _ mesmo quando, no nosso caso, podemos nos relacionar por já termos passado também por um golpe militar.