Nos anos 80, no Brasil, o jovem Amyr Klink se propõe a realizar a primeira travessia a remo no Oceano Atlântico Sul, contando com um barco construído especialmente para esse fim. Durante sua viagem, ele se vê desafiado por uma imensidão azul durante 100 dias.

Por mais que conflitos familiares sejam um tema com o qual é fácil se identificar, a impressão é de que falta solidez ao tratar disso no enredo. O afeto da mãe – uma presença simpática de Philippine Leroy-Beaulieu – e o companheirismo com o irmão caçula (João Vitor Silva) acompanham Amyr durante toda sua trajetória, traçando no mapa o caminho que Amyr está fazendo em seu barco. Uma dinâmica reconhecível que sustenta a base dos personagens.

Em contrapartida, a relação com o pai (Felipe Camargo) é a que mais ressoa em Amyr. O patriarca é aquela figura rígida e autoritária, que se opõe às escolhas do filho e não vê seriedade em sua empreitada. Um antagonismo competente, porém simplista demais para ser algo além de clichê e caricato.

A fragmentação do passado e do presente prejudica a narrativa de 100 Dias. Os flashbacks da infância até são bem-vindos, mas não seguir a linha temporal desde que Amyr tomou a decisão de cruzar o oceano, da construção do barco até o dia em que começa sua remada, prejudica não só o senso de dificuldade da tarefa como também o ritmo da narrativa. A escolha da narração em voice-over é mais um fator que contribui para que o filme siga por boa parte engessado.

Os primeiros minutos do longa mostram o protagonista indo para a Namíbia, país do sudoeste africano, para de lá partir rumo a Salvador, no litoral baiano. As partes em que Klink está em alto mar são mais interessantes tanto pelo aspecto mais íntimo, de uma pessoa em sua própria companhia determinada a um objetivo, quanto pelos desafios externos, como a manutenção do barco e a presença de animais marinhos.

O filme imprime alguma personalidade de fato quando chega ao seu terço final. Mesmo que talvez tarde demais, consegue consolidar as inquietações de seu protagonista numa bonita reflexão encenada em uma sequência belíssima em que Amyr encontra um dos seres mais majestosos do nosso planeta: as baleias.

Encabeçada por uma boa performance de Filipe Bragança, 100 Dias é uma cinebiografia que segue a estrutura desse gênero no cinema, mas tem dificuldade de alavancar, seja como uma aventura, uma jornada do herói ou um drama pessoal.