O final dos anos 60 foi um período de grande transição cultural e social nos Estados Unidos, época essa que se deu início o movimento da Nova Hollywood, na qual os jovens diretores americanos se desvencilharam do controle dos estúdios e passaram a desenhar a imagem do país em que viviam. Narrativas que expressavam a imagem e o sonho americano de uma forma crua, suja e corrupta, em que o suposto ideal havia se perdido entre a politicagem da Guerra Fria e a natureza real do americano capitalista e individualista. Falo disso para introduzir de forma breve o cenário em que Vício Inerente se passa: uma obra que não apenas soa como um filme investigativo Neo Noir dos anos 70, mas que também é temperado pela mente obscura e profunda de Paul Thomas Anderson, colocando um investigador bem divergente do arquétipo típico do protagonista de Noir: um hippie constantemente chapado, usuário de vestimentas velhas e largadas, interpretado por Joaquin Phoenix.
Diferentemente de uma abordagem que criticaria o tradicionalismo americano e partindo de uma visão contra cultural típica da filosofia hippie da época, Paul Thomas Anderson trabalha essa estética setentista por meio de sua imagem, fechando sua lente em seus personagens perturbados e criando um ambiente que fica entre o tenso, o misterioso, e uma psicodelia urbana que se vem muito da perspectiva maconhada de Doc (Joaquin Phoenix). O resultado é o cenário de um Estados Unidos falido, social e politicamente, amarrado a figuras poderosas que se escondem e influenciam a tudo e a todos, e nesse meio, está Doc. Ele é o motor tanto narrativo quanto visual; quase todas as situações que o investigador se encontra são filmadas e encenadas de uma maneira que beira o absurdismo, isso sem se soltar da verossimilhança de sua história.
Quando Doc grita ao ver a foto de um alvo, quando ele é derrubado por policiais no caminho para a delegacia, ou até mesmo quando descobre a fachada dos dentistas para o tráfico de coca, tudo isso possui esse teor ácido e sarcástico, como se fosse uma leve viagem esotérica. É muito nítido como o filme não se leva muito a sério em algumas partes, como se não quisesse manter uma atmosfera Noir clássica de tensão constante, mas ao invés disso, construir muito bem um humor que se relaciona muito bem com seu protagonista, um detetive drogado e constantemente chapado.
A câmara quase estática de Anderson é o principal artifício que forma a proposta narrativa do longa, em que o diretor constantemente mantém sua lente parada enquanto seus personagens se entregam de corpo e alma em longos diálogos que não se limitam a apenas monólogos; mantendo uma lenta aproximação constante que constrói muito bem os momentos chave de tensão. Isso se exemplifica em duas cenas magistrais: a primeira é quando Doc entrega informações cruciais a seu contato na polícia Big Foot (Josh Brolin), um policial marrento e temperamental que é sutilmente alvo de piadas sobre masculinidade, na qual a agressividade do personagem de Brolin para o jeito hippie de Doc vai crescendo conforme a conversa vai ficando mais reveladora e tensa, e a outra sendo quando Shasta (Katherine Waterston) reaparece, gradualmente se despindo e incitando Doc ao sexo, isso em uma mistura de um pequeno monólogo insinuante e contatos físicos lentos, que explodem quando o ato se concretiza.
É o filme em que Paul Thomas Anderson mais deixa a encenação fluir, muito parecido com o que ele havia feito em seu último longa O Mestre, no qual ele dava muito espaço para a construção do personagem de Joaquin Phoenix, aqui já sendo bem diferente. O diretor é muito mais fluido em como ele captura todos os enquadramentos do filme, alguns até se tornando pequenos planos sequências que só agregam a crescente ácida de seu humor, ao mesmo tempo que desenha uma atmosfera misteriosa ala um filme Neo Noir dos anos 70. Aqui ele está muito mais focado em sua piada, que não fica bastante clara em meio a tantas linhas narrativas — algumas delas que não se tornam tão importantes assim — mas que se manifesta muito mais em sua concepção geral, tornando o filme não uma trama de suspense investigativo, e sim um conjunto de situações absurdas que se englobam em uma única ideia: ser maluco, maluco em não ser tradicional.