Damien Leone é um autor que vem do cinema independente e, ao longo de sua filmografia, demonstrou um interesse bem genuíno numa estética mais “caricata” e “frontal”, que vem do uso de uma decupagem mais clássica na condução narrativa. Tal escolha estilística parece vir tanto de um certo apreço pelo melodrama, quanto da maneira que uma estética de filme B é assumida sem escrúpulos e sem medo. Terrifier é uma franquia que ficou bastante conhecida pelo uso da violência excessiva, referenciando diversos filmes de exploitation dos anos 80 e 90. O uso de cores chamativas e ambientes claros e contrastados para evidenciar e violência de maneira mais frontal para o espectador é algo que marca muito a abordagem do Leone quanto à insanidade sem limites de Art, o Palhaço (David Howard Thornton), o motivo e o motor visual do filme. Para além da violência, a caricatura e frontalidade que essas escolhas estéticas causam também fortalece muito a comédia desses filmes. Desde uma corporalidade extremamente cômica do personagem, que remete à grandes ícones da comédia muda como Charle Chaplin e Buster Keaton, até um senso de humor totalmente quebrado e ácido que vem das mortes e de como Art se diverte enquanto realiza sua carnificina.
Talvez o que mais me conquistou desde o primeiro filme é como o diretor brinca com diversas convenções de construção de uma mitologia dos personagens do cinema slasher. Desde a cena inicial de Terrifier (2016), em que vemos um homem “normal” se vestindo de palhaço e se preparando para matança em uma sequência com uma montagem bem dinâmica que preserva uma ideia de “nascimento” desse novo ícone do terror. A cena final em que ele é revivido contrasta isso e já expande a ideia paranormal e fantasiosa desse assassino imparável, narrativamente impactando como um cliffhanger e criando a noção de uma continuação. Em Terrifier 2 (2022) é onde a coisa ficou realmente diferente: ao continuar a expandir a mística e os poderes sobrenaturais (invadir sonhos, por exemplo) de Art, Leone opta por construir uma mitologia parecida em cima da Sienna Shaw (Lauren LaVera). Para além de um épico, sangrento e já esperado embate entre assassino e final girl, o filme insere e assume uma fantasia muito genuína para executar isso, sendo Sienna nossa heroína no sentido mais pleno da palavra.
Terrifier 3 (2024) se passa 5 anos após o embate contra Art na noite de Halloween, acompanhamos Sienna saindo da clínica psiquiátrica e finalmente voltando para sua família, mas ainda lidando com visões e traumas gerados pelo palhaço. Isso gera uma das melhores cenas do filme, onde Leone encena uma mesa de jantar super comum, mas Sienna começa a ter uma visão de uma das suas amigas assassinadas sentada na mesa junto dela, culpando ela de tudo que aconteceu e pedindo para “passar o arroz”. A obra concilia muito bem essa mistura de um terror gráfico (meio body horror, às vezes) com pinceladas de um “humor agressivo”.
O filme alonga e explora possibilidades ao encenar as sequências de gore, que para além da violência, são de uma maldade muito forte. Ao mesmo tempo que isso resulta em momentos inteiros de inquietação, toda a comicidade criada pelos trejeitos, piadas e pela presença de Art ao longo de toda a obra fazem do filme uma dinâmica entre horror e comédia muito estimulantes. Art que cada vez mais transita entre causar pavor genuíno e logo depois fazer um shitpost na nossa cara e isso é bizarramente cômico.
Os momentos finais do filme são especialmente contagiantes; a maneira como o embate final é arquitetado e as escolhas totalmente possibilitadoras do cliffhanger envolvendo o irmão de Sienna são alguns dos motivos principais para a minha empolgação com esse filme e o futuro da franquia que Terrifier já se confirmou ser.
Esses são algumas das ideias que me fazem considerar Art o grande assassino slasher pós Ghostface (Pânico, 1996). Muito pela maneira totalmente consciente que Damien Leone constrói essa mitologia em cima dos personagens, muito por como é um filme que acredita totalmente nas convenções históricas do gênero e quer explorar tudo que já existiu, desde reviver até ir para o inferno.