É uma posição relativamente fácil, quase um gesto de virtude social, afirmar que touradas são abjetas. O verdadeiro desafio para o espectador e para o crítico é tentar julgar o filme, e não o tema, perguntando-se se o ato de filmar é capaz de produzir algum curto-circuito, alguma implosão ou crise que reorganize o olhar sobre esse ritual para além da condenação ou da adesão prévias. O problema de Tardes de Solidão é que Albert Serra parece pouco interessado em qualquer contradição dessa natureza.
A questão começa na própria concepção antropocêntrica do filme. O foco é o Homem: sua batalha, seus riscos, sua vitória, sua “loucura”, sua performance, seu comportamento em cena. É talvez a decisão de olhar mais desinteressante e covarde possível diante de tudo o que esse tema tem a oferecer cinematograficamente. Os touros permanecem completamente subjugados, na forma de filmar, ao ser humano; não despertam interesse da câmera para além dos dribles, do massacre a que são submetidos e da função que desempenham dentro do espetáculo. A câmera assume quase uma visão binocular da arena, colocando-se na posição da plateia muito mais do que buscando produzir qualquer crise desse olhar.
Também não existe qualquer ruptura ética na maneira como Serra filma o corpo perfurado, cansado e agonizante do animal. A câmera compartilha o mesmo regime de olhar do espetáculo, permanecendo aproximada enquanto acompanha cruelmente o lento ato de morrer sob uma falsa aparência de distanciamento documentarista observacional. Narrativamente, tampouco há avanço. É uma repetição sádica atrás da outra, e os espetáculos posteriores nada acrescentam ao primeiro além da condescendência. Se o documentário possui a possibilidade de transformar seus planos brutos pela montagem, reorganizando o olhar sobre um tema através da colisão e do choque entre imagens como um quebra-cabeça, essa potência parece completamente recusada. Há apenas uma sequenciação cronológica que valida todo o processo sem jamais produzir qualquer atrito com ele.
Não se trata de exigir que Albert Serra faça o filme que parte do público gostaria de ver, nem de condicionar sua qualidade à adoção de uma postura moralmente condenatória da tourada. A questão está no falseamento da não participação. Não existe neutralidade quando se escolhe o que colocar diante da câmera, como enquadrar, o que excluir e como organizar essas imagens na montagem final. Ao assumir o mesmo regime de olhar do espetáculo sem nunca colocá-lo em crise, Tardes de Solidão termina menos interessado em compreender a tourada do que em reproduzir sua lógica de contemplação, transformando sua suposta observação em uma tomada de posição profundamente comprometida com aquilo que filma.
I am not usually one to leave reviews but this app deserves all the praise. The interface is sleek and the payment options cover everything I could need. Finally a spot that just gets it. Download fb77app and see what you think. fb77app