De acordo com o folclore japonês, os oni são criaturas demoníacas, fortes e grandes. Em sua maioria, possuem pele vermelha ou azul, presas afiadas, dois ou mais chifres e são dotadas de porte físico sobre-humano. São os guardiões do inferno, que espalham doenças, destruição e rastros de desastres por onde passam. Provocam castigos horrendos, como torturas que podem envolver desde esmagar ossos até arrancar a pele das pessoas. Essas punições são inflingidas àqueles que são perversos, mas não o suficiente para ressurgirem como oni; pois um humano pode se tornar um ainda em vida, quando sua maldade ultrapassa qualquer chance de redenção. Estes últimos são ditos como os mais perigosos para a humanidade. Dentro dessas criaturas demoníacas, está a Onibaba, também chamada de Kurozuka, Mulher da Montanha ou o Demônio de Adachigahara.
Onibaba tem a aparência de uma velha bruxa que se alimenta de humanos e disfarça sua forma diabólica como uma idosa inofensiva, numa linha de carretel. Sua história começa pelo fato de ela, enquanto babá de uma criança de cinco anos, ter sido ordenada pelos pais da criança a alimentá-la com o fígado fresco de um feto vivo, por recomendação de uma cartomante, para solucionar a preocupação dos genitores com o menino, que, desde que nasceu, não pronunciava um som sequer. Após algumas semanas sem achar nada, a babá ficou em uma caverna, esperando que alguma grávida estivesse disposta a oferecer o tal fígado. Passados vários anos, uma mulher grávida se aproximou da caverna e, num impulso, a babá avançou nela e arrancou o feto. Mas, após perceber que a mulher usava um omamori (amuleto de proteção) igual ao que ela havia dado à sua filha há muitos anos, enlouquece e se transforma em um yōkai (criatura sobrenatural), passando a atacar andarilhos e devorar a carne deles.
O filme de 1964 — que conta a história da mãe e da esposa do soldado Kichi, as quais matam samurais e vendem seus pertences, quando a nora tem um caso com o vizinho Hachi, desaprovado pela nora — utiliza-se dessa mitologia como maneira de retratar efeitos múltiplos do horror, sendo o monstro uma materialização de diversos aspectos, como a guerra, a culpa, a castidade e o egoísmo. Todos esses sendo fatores significativos para se entender a natureza humana. A guerra se torna um fator-matriz para formar todas as circunstâncias, pois a situação em que a sogra e a nora encontram-se é fruto da ausência do ente querido, que foi lutar e acabou morto durante um confronto. É Hachi quem volta da guerra para noticiar as mulheres sobre o ocorrido e quem inicia um caso com a nora, agora viúva.
Onibaba coloca esse lugar como uma plantação de trigo silenciosa e isoladora, mostrando como aquilo se tratava de um ambiente sem vida e que era um terreno fértil para qualquer situação indesejada. Para sobreviverem, as duas mulheres matam viajantes samurais que vagavam pelas plantações, descartam seus corpos em um poço fundo e revendem seus pertences de valor roubados. Aqui aparece a primeira analogia com o mito ao colocar a personagem principal como alguém que mata viajantes à deriva e usa de seus restos para se alimentar; entretanto, ao invés de comer suas carnes, elas vendem seus pertences como forma de conseguir comida.
Os fatores da culpa e da castidade andam juntos nesse processo e são outros dos principais elementos que dão origem ao monstro. Quando Hachi deserta da guerra para noticiar as mulheres sobre a morte do homem, ele acaba se envolvendo com a nora. A velha sente-se ameaçada e incomodada por isso, pois teme que ela a deixe para viver com Hachi. Então, ela se utiliza de uma máscara samurai de demônio e passa a assustá-la para impedir os encontros noturnos do casal. Aqui se discutem questões morais atreladas à sexualidade. Como uma tentativa fracassada de impedir que sua nora continuasse se encontrando com Hachi, a sogra se utiliza de um discurso de pecado para tentar prendê-la, como ao falar de um padre que disse que os que cometem adultério vão arder nas chamas do inferno pela eternidade (mesmo que o marido tivesse falecido). Ela não está preocupada em ser moralista ou fala isso porque acredita genuinamente na preservação da pureza carnal, mas sim por puro egoísmo e possessividade em cima de sua nora.

O filósofo Ludwig Feuerbach, autor de A Essência do Cristianismo, faz um comentário que leva essas crenças religiosas para um viés antropomórfico ao dizer: “O homem criou Deus à sua imagem e semelhança”. Ele basicamente afirma que Deus é uma projeção externa da essência humana, na qual sua consciência e ideia de si são abstraídas como um absoluto. Assim, os atributos que cada um dá a Deus dizem mais sobre si mesmo do que sobre uma suposta divindade. Se a pessoa diz que Deus é misericordioso, isso vem da necessidade humana de compaixão; o mesmo se aplica aos que enxergam Deus como alguém justo, autoritário, onipotente, racional ou até sádico. São reflexos das necessidades de manter a ordem, seguir a razão ou de desejos de superar limites e alcançar poder sobre outros. É nesse pensamento que a personagem se insere. Quando ela diz que sua nora será punida pelo demônio caso volte a se encontrar com Hachi, e não é levada a sério, ela mesma acaba se tornando esse demônio e passa a aterrorizá-la como forma de provocar medo, impedindo-a de deixar a cabana — mesmo que isso reprima seus desejos. O que ela disse sobre o demônio acaba, literalmente, dizendo mais sobre ela do que sobre qualquer figura sobrenatural.
Outra forte inspiração de Onibaba está numa parábola budista chamada Yome-Odoshi-No Men (a máscara que assusta a nora), em que uma mulher, motivada por ciúmes da devoção de sua nora por suas constantes visitas ao templo, usa uma máscara de demônio para afugentá-la. Como castigo divino, a máscara funde-se à pele da sogra, e só sai do rosto quando ela resolve orar para Buda, mesmo que a carne também seja arrancada no processo. Na história, a punição vem do egoísmo e da afronta às crenças religiosas; já no filme, a punição vem também do egoísmo, mas agora vem da afronta aos desejos carnais, ou seja, uma repressão à natureza humana. Nesse processo final de punição da sogra, outro elemento reflexivo é levado à tona: o das máscaras.
O adereço usado pela sogra para se disfarçar é uma máscara Hannya, com origem no teatro Noh, forma de encenação tradicional da cultura japonesa, e que representa uma mulher que foi transformada em demônio por sentimentos intensos como ciúmes e raiva. Quando sua máscara é dolorosamente arrancada, seu rosto fica terrivelmente deformado, de forma que ela se parece com um monstro, como se o metafórico desse lugar ao literal. Isso está ligado diretamente ao paradoxo de que uma máscara, ao invés de esconder, revela. Ao ocultar algo de si, acaba expondo seus instintos mais profundos e subjetivos, pois, em um lugar de suposta segurança, você fala e age de forma livre e solta. Isso também se liga ao fator da guerra no filme, pois a sogra conseguiu aquela máscara de um samurai perdido que havia desertado da mesma guerra em que seu filho havia morrido e que usava uma máscara de demônio porque, segundo ele próprio: “Pareço mais forte com ela, não?”. Em ambientes hostis, onde homens se tornam assassinos e deixam rastros de sangue, a guerra os transforma em demônios, e a máscara que ele usava refletia isso, funcionando como uma identidade que demonstra poder e temor.
No geral, Onibaba é um estudo muito aprofundado e íntimo da natureza humana, em um Japão composto por cenários de solidão e vazio, preenchidos por dinâmicas totalmente ausentes de qualquer filtro moral, em que não há sobrenatural, e os verdadeiros demônios são os humanos que vagam pela terra, infligindo o mal por motivações mesquinhas e puramente instintivas.