Esse filme tem alguns méritos, acho que o diretor consegue construir bem um espaço de perigo das ruas da cidade e gosto de como ele constrói essas situações que geram a sensação sempre ao redor da protagonista. Nesse sentido, um dos méritos narrativos do filme é como ele faz a personagem demorar para perceber que tudo estava na volta dela desde o começo.

Nesse último filme, acompanhamos Maxine, que, após os eventos traumáticos que passou, se encontra avançando gradualmente na indústria como atriz, participando do seu primeiro filme, um terror. nomeado de ‘A Puritana 2’, o filme infelizmente é só uma desculpa narrativa para o longa conseguir executar alguns fanservices que são bem jogados em uma narrativa que, visualmente, até resolve algumas boas cenas, mas no geral soa muito distanciado e automático.

Talvez o que mais tenha me chamado atenção nesse filme seja como ele não pareça concluir nenhum de seus objetivos narrativos. Essa distanciação ocorreu muito por conta da obra tentar fazer muitas coisas ao mesmo tempo, sem fazer nada meramente inventivo visualmente. É um longa com pouquíssimos momentos que me marcaram, acho que a melhor coisa da primeira metade da obra (além da construção de perigo da cidade) é uma cena que constrói a Maxine como uma personagem muito preparada para combater esses perigos da cidade: ela é cercada por um “assassino” com uma faca em um beco e, no último momento, ela saca uma arma, que já havia sido mostrada anteriormente, se colocando como uma persona muito ‘badass’ e preparada. Numa cena que beira o absurdo cômico, Maxine obriga o criminoso a tirar as roupas e deitar de barriga para baixo, o que ela faz depois eu não falarei, adianto, entretanto, que é uma cena que soa bem corporal e que possui humor duvidoso.

Esse embate entre Protagonista x Cidade Perigosa é interessante para construir um tom ‘épico’ que eu sempre senti que o Ti West buscou nesses filmes. Talvez o vilão nos momentos em que referencia Giallo — subgênero de terror italiano —, só com um ‘POV’ e luva de couro preta, tenha funcionado bastante também. Mas, no final, todo o esquema dos assassinatos em volta de Maxine parece simplesmente se jogar em uma trama aleatória que até se relaciona com a cena inicial, porém não empolga por conta da sensação de desgaste.

Mia Goth, protagonista e também Produtora do filme, não atua nada mal. Mas diferente dos outros dois longas, visualmente não é dado nenhum espaço para a personagem, que parece escanteada em meio a essa cidade, sim, visualmente perigosa, mas habitada por situações que não me impactaram de nenhuma maneira mais expressiva. É uma encenação bagunçada, ao mesmo tempo que não dá espaço para uma cena que remeta ao monólogo em ‘Pearl’, o diretor parece não conseguir criar tensão ou suspense com essa reação em cadeia de acontecimentos que soam aleatórios.

As sequências finais até são bem interessantes, mesmo com uma abordagem um tanto apática na aproximação do espectador com a protagonista, sinto que, ainda assim, ela é a melhor coisa do filme. Mia é uma atriz com muito potencial, e fico animado para ver mais filmes do Ti West para além dessa trilogia.

Quanto mais o tempo passa, menos gosto do filme. Ele parece não se agarrar em algum aspecto narrativo e simplesmente se jogar no cenário de Psicose, por exemplo, só para o jovem cinéfilo olhar e falar “Olha só, uma clara referência ao clássico filme de Alfred Hitchcock!”. Uma de algumas referências baratas que poderiam, sim, ter sido melhor utilizadas para fazer um filme decente mesmo nessa proposta ‘revisionista’ que o diretor buscava.