Marlon Brando: Um Ícone Controverso, para o Bem e para o Mal
Marlon Brando é um dos astros mais importantes e influentes da história do cinema. Além de um dos maiores símbolos sexuais de seu tempo, também foi um dos primeiros representantes do controverso Método de Stanislavski, técnica da atuação ensinada pelo ator Lee Strasberg que, a grosso modo, faz com que os atores absorvam para suas vidas pessoais alguns sentimentos e vivências de seus personagens para estimular uma performance mais convincente.
Foi com essas ideias deturpadas que, durante as filmagens de Último Tango em Paris (1972), Brando aceitou a proposta do diretor Bernardo Bertolucci de pegar a jovem atriz Maria Schneider de surpresa em uma cena de estupro, com o intuito de torná-la mais visceral. E assim o fez, já que um estupro foi, de fato, cometido.
Essa foi só a primeira das polêmicas que marcaram sua vida e obra até depois de sua emblemática presença em O Poderoso Chefão (Coppola, 1972) como Don Vito Corleone. Ironicamente, Brando também foi um dos maiores ativistas de Hollywood em prol dos Direitos Civis. A seguir, uma lista de sete filmes protagonizados pela figura moralmente ambígua que dominou o cinema estadunidense no século XX.

Uma Rua Chamada Pecado
Baseado na peça Um Bonde Chamado Desejo (1947), do estadunidense Tennessee Williams, o longa acompanha os conflitos acalorados entre a ex-professora Blanche DuBois e seu cunhado abusivo Stanley Kowalski quando a primeira busca abrigo na casa de sua irmã Stella, em Nova Orleans. Kazan, no geral, mantém boa parte das características teatrais da narrativa, mas ressignificando-as na tela grande. A limitação cenográfica no apartamento de Stella, por exemplo, torna-se opressiva para as duas mulheres sob a presença de Stanley, interpretado por Brando como um jovem que nutre uma insatisfação violenta agravada pela sua atual posição de patriarca da família.

Júlio César
Adaptação da tragédia de William Shakespeare, o longa de Joseph L. Mankiewicz acompanha a gradual queda do imperador romano, cercado por conspirações políticas violentas enquanto sua sanidade se esvai. Diferente dos épicos romanos grandiosos da época, Júlio César aposta em uma encenação quase teatral. Filmado em preto e branco, com cenários relativamente austeros, o foco está menos no espetáculo e mais no conflito moral, retórico e político. Esses temas ganham ressonância especial no contexto dos anos 1950 nos Estados Unidos, período marcado pelo macarthismo, pela paranoia política e pelo debate sobre autoritarismo e democracia liberal.

Vidas em Fuga
Adaptação de Orpheus Descending (1957), outra peça de Tennessee Williams, o filme acompanha o arruaceiro Snakeskin que, depois de sair da detenção, busca por uma nova vida honesta em uma cidadezinha conservadora no interior do Mississippi. Lumet, embora já tivesse uma obra-prima de estreia, ainda estava se conhecendo como um cineasta e, de fato, esse é um filme “menor” de sua carreira. Porém, o destaque aqui é como o roteiro e a direção posicionam o protagonista de Brando em um impasse existencial, entre assumir a liberdade que idealiza e render-se a uma vida domesticada. Sua crise é agravada quando cada decisão é representada por uma bela mulher.

A Face Oculta
Único filme dirigido pelo ator, A Face Oculta acompanha a história de vingança de Rio, que, anos após ser traído e abandonado pelo seu parceiro de crime durante um roubo, foge da prisão buscando retaliação pelo ocorrido. A vingança, porém, é lentamente afetada e corroída pela ambiguidade moral, pelo desejo e pelo ressentimento não resolvido. O longa apresenta-se como um faroeste dramático, marcado por tensões internas, obsessões morais e uma encenação profundamente autoral, que o coloca em um meio-termo entre o western tradicional e o épico hollywoodiano, ainda tão em voga naquele período.

Caçada Humana
Brando interpreta o xerife de uma pequena cidade do Texas à procura de Bubber Reeves, um fugitivo acusado de homicídio. À medida em que passa de casa em casa investigando o paradeiro do suspeito, um magnata do petróleo descobre que seu filho mantém um caso com a esposa de Reeves e decide intervir para acobertar a situação. Para além da trama investigativa, a obra desenvolve uma forte dimensão locacional, que impulsiona a narrativa ao retratar as vivências paralelas dos moradores locais e as tensões sociais e raciais, ainda intensas no período. Aos poucos, todos são atraídos para o conflito central, de modo que a cidade inteira acaba se envolvendo na caçada..

Os Pecados de Todos Nós
Baseada no romance homônimo da autora estadunidense Carson McCullers, publicado originalmente em 1941, a história foca no Major Weldon Penderton e sua esposa Leonora durante uma crise conjugal. Ela o trai constantemente com seu melhor amigo, também militar, enquanto ele tenta reprimir a atração que sente por um subordinado que está obcecado por sua esposa. O longa de Huston parece uma provocação ao Código Hays, que já tinha os dias contados. Ao focar em um militar homossexual e na completa farsa da “família tradicional americana”, incluindo o idealismo matrimonial, essa obra figura entre as joias mais subvalorizadas do início da Nova Hollywood.

Francis Ford Coppola: O Apocalipse de um Cineasta
Registro completo dos bastidores desastrosos de Apocalypse Now (1979), clássico absoluto da carreira de Francis Ford Coppola, focando no ano em que ele, sua família e sua equipe passaram nas Filipinas para filmar a adaptação de Coração das Trevas (Conrad, 1899) como uma odisseia sobre a Guerra do Vietnã. Caos e loucura dominaram as filmagens e inúmeros problemas levaram muitos a acreditar que o filme jamais seria concluído e que Coppola morreria na selva. Dentre os imprevistos, estava Marlon Brando, que, apesar de sua performance memorável, contribuiu para os problemas da produção ao chegar fora de forma, sem ter lido o livro e nem decorado suas falas.