O cineasta holandês Bert Haanstra tem um cinema profundamente interessado em encontrar uma ordem própria nas coisas: seja na natureza de Panta Rhei (1952), em que diferentes elementos parecem pertencer a uma mesma composição cosmológica; seja em Mirror of Holland (1950), no qual água, terra e imagem se confundem através das deformações da matéria. Em Glass, essa sensibilidade encontra o ambiente industrial: o processo de fabricação do vidro é transformado em uma sinfonia mecânico-humana, na qual a câmera parece deixar de ocupar uma posição externa diante do trabalho para se integrar organicamente à própria cadeia de produção. É nesse sentido que Glass me parece um ancestral espiritual de Wolfram, A Saliva do Lobo (2010), documentário português de Joana Torgal e Rodolfo Pimenta sobre o processo de extração de minério nas Minas da Panasqueira, um dos grandes filmes documentais do século XXI. Se, em Wolfram, a câmera se confunde com o próprio processo operário, acompanhando a matéria que nasce da terra e é transformada pelo homem-máquina, Haanstra encontra algo semelhante dentro da fábrica, no qual o cinema não observa simplesmente o trabalho, mas entra em sua pulsação, confundindo-se com seus movimentos, ritmos e materialidade.

A plasticidade do vidro ainda em estado bruto, envolto pelo magma e pelo calor, produz inicialmente uma matéria quase alienígena, informe e ameaçadora, que aos poucos é submetida ao manuseio delicado e ordenado dos trabalhadores. As mãos, as ferramentas e as máquinas estabelecem uma relação de precisão absoluta com aquilo que está sendo transformado, e Haanstra encontra nessa passagem da matéria informe ao objeto acabado uma espécie de beleza escondida no próprio trabalho industrial. Não se trata, porém, de uma oposição simples entre homem e máquina, já que ambos participam de uma mesma composição, alternando-se e complementando-se como instrumentos de uma banda que produz sua música através da matéria.

É justamente a montagem que revela essa música. Haanstra não apenas registra um ritmo que já existe na fábrica, mas fabrica um ritmo cinematográfico que provavelmente não existiria sem a organização das imagens, dos cortes e da trilha sonora. Movimentos descontínuos das mãos, máquinas e objetos passam a adquirir uma continuidade musical através da repetição, da sincronização e da alternância entre diferentes etapas do processo. O trabalho deixa de ser apenas trabalho e passa a ser dança (não porque os trabalhadores estejam literalmente dançando, mas porque a câmera e a montagem descobrem uma coreografia latente na precisão de seus gestos). Haanstra não filma uma dança que estava acontecendo na fábrica, ele monta o trabalho até que a própria fábrica passe a dançar.

Por isso, Glass alcança algo próximo de uma experiência de encantamento materialista. A beleza não está separada do processo industrial, e sim nasce justamente da atenção às suas engrenagens, à transformação da matéria e à integração entre o corpo humano e a máquina. É uma sinfonia maquinal que encontra sua musicalidade naquilo que poderia parecer apenas repetição e rotina, revelando uma arte escondida dentro de uma cadeia produtiva. Em Glass, Haanstra encontra não uma visão de fora sobre o trabalho, mas uma experiência cinematográfica que entra em sua pulsação até transformar homens, máquinas, fogo e vidro em uma única composição.