Filmes Sobre a Ditadura: As Tramas e Conflitos Políticos dos Anos de Chumbo
Em 2024, se completa 60 anos do golpe de estado que impôs a ditadura empresarial-militar no Brasil que durou 21 anos. Foi, sem dúvida alguma, um dos períodos mais sombrios da nossa história e que deixa feridas abertas até hoje. Essa ditadura foi implementada em contexto de Guerra Fria, onde os Estados Unidos apoiavam e financiavam golpes de estado e ditaduras de extrema-direita na América Latina, em exemplos como o Chile e Argentina, como forma de combater o “fantasma do comunismo” e impedir o avanço de políticas esquerdistas que visavam autonomia do próprio país e combater o imperialismo ianque, que já temia o surgimento de novos blocos socialistas muito por conta da Revolução Cubana em 1959 liderada por Fidel Castro.
O golpe aconteceu muito por conta das reformas de base do, até então, presidente João Goulart que dentre outras coisas propunha uma reforma agrária e distribuição justa de terras aos trabalhadores rurais; o que, obviamente, deixou a burguesia nacional, os militares e a parte mais conservadora do país bastante alarmados, muito por conta do grande apoio que Goulart tinha, visto que grande parte do Brasil na época era de camponeses. Então no dia 31 de março de 1964, vários militares partiram com seus até Brasília, tomaram o Congresso, depuseram o Goulart e iniciaram uma ditadura que teve muita repressão, censura fortíssima, torturas, resistência, altíssima concentração de renda e outras atrocidades que se agravariam após o AI-5 (época que ficou conhecida como “Anos de Chumbo”).
Devido a isso, muitos filmes nacionais se empenharam em retratar esse período seja de forma mais direta ou mais sutil para que a memória desse tempo jamais seja apagada. Então, aqui estão algumas indicações incríveis de filmes que, não só falam da ditadura, mas também de coisas que antecederam o período para melhor contextualizar aquele tempo e todo o processo histórico e pensar o Brasil de hoje e de antes. E uma lista como essa é de suma importância, visto que vivemos em época de constante apagamento histórico e desinformações à respeito disso vindo não só de mídias falsas e redes sociais, mas também das próprias instituições do Brasil.

Maioria Absoluta
Um curta metragem documental de 18 minutos que fala sobre o analfabetismo no Brasil e da situação dos trabalhadores do campo. Importante filme para entender como que eles, mesmo sem qualquer formação, eram totalmente cientes e revoltados com as condições que viviam. Uma forma de ver como a consciência de classe estava crescendo muito impulsionada pelas reformas do Goulart e de compreender a razão sistemática dessa miséria, o que foi um medo que impulsionaram os militares a tomarem o poder.

Terra em Transe
Aqui não se trata apenas de uma alegoria a ditadura militar, mas de toda a política na América Latina. Um filme visto sob a ótica de um poeta aspirante a revolucionário que se vê desiludido e melancólico ao enxergar as contradições e as dinâmicas da política reacionária versus a política populista e entreguista, aonde o povo sempre termina em último. O filme, que causou muita polêmica em ambos os espectros e chegou a ser censurado, fala da realidade latino-americana de forma poética e utilizando de uma abordagem que traz uma ideia de paranoia retrata o sentimento de desilusão e falta de perspectiva para com a realidade brasileira.

O Caso dos Irmãos Naves
Se trata de dois períodos brutais no Brasil: a ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas e a ditadura militar. Conta a história de dois irmãos que foram presos injustamente e duramente reprimidos enquanto resistiam ao sistema penal. O filme conta a história da ditadura militar de 64 usando o Estado Novo como um disfarce pra driblar a censura pouco antes da implementação do AI-5.

Pra Frente, Brasil
Um outro aspecto importante dessa época foi o “milagre econômico” e as propagandas chauvinistas muito também por conta da euforia da Copa do Mundo de 1970, onde a seleção brasileira foi campeã. Todo esse nacionalismo exacerbado em slogans como: “Brasil – Ame ou Deixe-O” era uma forma de anestesiar a população muito por conta dos anos 70 ter sido nos ‘anos do chumbo’ do governo Médici, o período mais repressivo e sanguinário da época. Uma história de política de pão e circo sobre um cidadão comum que é preso e torturado após ser confundido com um ativista político, o que deixa seus parentes e amigos desesperados (pois era comum que pessoas na época simplesmente ‘desaparecerem’ do nada); em contrapartida o povo está distraído acompanhando alegremente a Copa de 70.

Cabra Marcado Para Morrer
Aqui é o documentário mais brutal e pesado (mesmo sem mostrar nenhuma cena de assassinato) sobre os primeiros anos da ditadura. Aqui é o prefeito exemplo de um tempo que até hoje reflete na nossa realidade O filme fala de uma pauta extremamente importante no Brasil: a luta do trabalhador pelo direito à terra. O documentário conta a história de um filme de mesmo nome sendo produzido sobre João Pedro Teixeira, líder das Ligas Camponesas que foi brutalmente assassinado. Porém as filmagens foram interrompidas por conta e anos depois foram entrevistar parentes e pessoas conhecidas para continuar a história de Teixeira e de sua luta através de relatos. São dois filmes sendo retratados de uma vez, ambos em uma estrutura documentada; que traz uma grau de aproximação com a realidade que é muito maior e mais potente.

O Que é Isso, Companheiro?
Um filme que foca no papel importante das guerrilhas urbanas na luta contra os militares. Aqui o evento se trata de um dos episódios mais marcantes da luta armada: o sequestro do embaixador estadunidense Charles Elbrick liderado pelos grupos ALN e MR-8. Esse episódio foi uma grande consquista para os guerrilheiros porque, em troca da libertação do embaixador, eles conseguram a soltura de 15 presos políticos (que depois foram exilados no México), ganhos de recursos financeiros dentre outras exigências. Uma ótima forma de compreender a guerrilha urbana na época e a história de alguns movimentos rurais também, como a Guerrilha do Araguaia.

Batismo de Sangue
Outro fator importante de se compreender nessa época na política latino-americana era a Teologia da Libertação, um movimento politico da igreja católica popular em países como Brasil, Colômbia, Chile e etc, que utilizava a fé cristã em favor dos pobres e oprimidos como forma de denúncia e justiça social. Aqui se conta de freis dominicanos que motivados não só por uma visão política, mas também religiosa, aderiram a luta armada e ingressaram na ALN (liderada por Carlos Marighella) e que foram perseguidos e torturados. Uma forma interessante de observar as diversas motivações que fazem as pessoas resistirem contra a opressão ao povo.