Filmes de Espionagem: agentes secretos e tramas mirabolantes
A espionagem é uma prática milenar utilizada nas mais diversas esferas da vida. É comum a prática da espionagem de uma empresa sobre outra, da polícia sobre organizações criminosas (ou o contrário), de agências públicas contra grupos revolucionários, dentre muitos outros.
Contudo, a face da espionagem mais presente no cinema é a governamental, ou seja, a prática de um governo infiltrar agentes em outro para obter informações. Muito do crescimento dessas tramas na sétima arte se deu em virtude da necessidade de propaganda na Guerra Fria, quando os Estados Unidos e seus aliados fizeram massivas iniciativas no cinema para criar no imaginário popular uma imagem monstruosa da União Soviética. Nesse período, franquias como 007 despontam e fazem um enorme sucesso no ocidente.
Posteriormente, e com a paranoia anticomunista já enfraquecida (apesar da nova crescente atual), as histórias de espionagem continuam bem quistas no cinema, adquirindo, nessa oportunidade, um caráter revisionista que vai além do maniqueísmo entre os lados das guerras para explorar a corrupção e as farsas de todos os envolvidos, ainda que presentes muitos dos resquícios do anticomunismo do século XXI.

Moscou Contra 007
Apesar da franquia 007 ter sido responsável por reduzir o subgênero a filmes de ação com pouquíssima espionagem real, vale destacar como esse 2º capítulo protagonizado por James Bond é um dos poucos que deixa a ação e os exageros de lado para compor uma narrativa de investigação charmosa e elegante. A fim de recuperar um decodificador dos soviéticos, Bond deve trabalhar com uma bela funcionária russa, sem saber que tudo é uma armadilha de vingança da organização SPECTRE. É um dos melhores da série e um dos poucos que explora, de fato, a faceta de superespião de um Bond ainda embrionário no cinema.

Munique
Depois do atentado nas Olimpíadas de Munique pelo grupo terrorista Setembro Negro, em 1972, um grupo de agentes do Mossad é enviado para a Europa a fim eliminar os responsáveis pelo ataque. Hoje, o conflito entre Israel e Palestina está em momento de ebulição total. Nesse contexto, é fascinante perceber como Spielberg – um diretor judeu – conseguiu conduzir um dos suspenses mais questionadores sobre todo esse conflito. Lúgubre, desesperançoso, paranoico, um suspense hitchcockiano afiadíssimo (a cena do telefone é antológica) e uma das melhores obras desse grande cineasta.

A Espiã
Depois de perder toda a sua família ao tentar escapar da Holanda ocupada, a cantora judia Rachel Stein muda seu nome para Ellis de Vries e se junta a resistência holandesa contra os nazistas, atuando como uma espiã infiltrada na Gestapo (a polícia secreta do partido nazista), seduzindo seu líder e arrancando segredos dos alemães. Paul Verhoeven já havia se aventurado no suspense com o ótimo Instinto Selvagem, transferindo muito de suas características autorais para seu filme de espionagem, sendo empolgante em todos os seus momentos e sensual com sua personagem principal, que se utiliza de sua sensualidade em seus meios para espionar os inimigos.

Desejo e Perigo
Um grupo de estudantes universitários de Hong Kong planeja derrubar um agente do alto escalão do governo invasor japonês em Xangai durante a Segunda Guerra Mundial. Baseada em um romance escrito por Eileen Chang, que, por sua vez, foi inspirado pela história real da espiã chinesa Zheng Pingru, a história demonstra como a técnica de espionagem de armadilha sexual (honey trap) era utilizada para obter informações íntimas preciosas de suas vítimas. Tudo isso com muita sensualidade e uma fotografia belíssima.

O Espião que Sabia Demais
E voltamos para o Reino Unido nesse intrincado suspense revisionista, o total oposto do padrão estabelecido por James Bond. O espião aposentado George Smiley é secretamente chamado pelo governo britânico para investigar, em plena Guerra Fria, a presença de um infiltrado soviético na alta cúpula de inteligência do país. Alfredson compõe seu thriller de forma paciente, cheia de informações e com um grande foco na cada vez maior relação entre pessoal e profissional de cada um dos personagens desse mosaico. A frieza dos espiões, aos poucos, dá lugar a afeto, arrependimento, decepção, moral e, principalmente, humanidade.

Aliados
Max e Marianne, dois espiões recebem a missão de se infiltrar em um território nazista, no Marrocos, para eliminar um embaixador alemão. Durante o trabalho, se apaixonam e criam laços fortes. Após concluírem a missão, parecia que poderiam viver em paz, mas não esperavam que seus passados voltariam para os atormentar. Para contar essa história, Zemeckis utiliza uma narrativa clássica — os espiões, a femme fatale, etc — e outros aspectos formais da Hollywood da época de ouro. Ao mesmo tempo, mescla isso com elementos modernos e digitais, como um profundo uso de CGI. Uma mistureba repleta de suspense, tesão, paixão e perigo.

O Espião que Foi Para o Norte
O filme conta a história real de um espião sul-coreano que se disfarçou de empreendedor para obter informações acerca do programa nuclear norte-coreano. Apesar da propaganda anticomunista aqui presente, é um thriller político muito interessante que explora vários tropos da espionagem em um contexto diferente — uma vez que se baseia nas tensões entre as Coreias — e vai além de uma visão maniqueísta entre os países a fim de explorar as complexidades e jogos de poder neles presentes. Uma ótima recomendação para explorar a espionagem para além do ocidente.